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| Natimortalidade na
suinocultura tecnificada: A importância de um diagnóstico correto Fernando Pandolfo Bortolozzo, Ivo Wentz, Vladimir Farias Borges, Luís Gustavo Schneider e David E. Barcellos A natimortalidade é um problema na minha granja? A natimortalidade na suinocultura é um problema amplamente discutido e estudado, mas, apesar disso, muitos pontos permanecem obscuros na interpretação dos índices encontrados no dia-a-dia. O total de leitões nascidos em uma leitegada é composto pelo número de leitões nascidos vivos, natimortos e mumificados. Na análise dos dados de produção de um rebanho os técnicos responsáveis poderão definir se os dados são aceitáveis ou não para a realidade da granja em questão. As diferentes genéticas sugerem alguns parâmetros de produtividade no que diz respeito ao total de leitões nascidos e também utilizam informações geradas a partir de diferentes programas de gerenciamento de dados para definir perdas aceitáveis por natimortos e mumificados. Nesse sentido surge a primeira pergunta: qual o índice aceitável de natimortos na suinocultura tecnificada atual? Não é uma pergunta fácil de ser respondida de forma direta, com um dado percentual x ou y. O ponto principal ao início da visita à granja é que o índice de natimortos protocolado seja real, anotado de forma precisa e confiável. Porque procuramos enfatizar isso? Muitas granjas estabelecem valores alvo ou metas para o quesito natimortos. Com isso, em pouco tempo, esses valores são normalmente alcançados, pois a equipe de maternidade é cobrada insistentemente para alcançar uma meta irreal de, digamos, 3% de natimortos. O que acontece nesses casos onde a cobrança desses valores é feita sem critérios objetivos? Normalmente a meta é alcançada e a granja mantém por longos períodos valores de natimortos constantes, em valores muito próximos à meta exigida. Diversos trabalhos têm demonstrado que o valor de natimortos é na verdade bem superior ao anotado, ou seja, o dado real é mascarado para que uma meta fictícia seja atingida. A equipe de maternidade, devido as excessivas cobranças e ao desconhecimento da importância no registro correto dos dados de parto, acaba omitindo parte dos natimortos produzidos. Schneider et al. (2001) realizaram uma avaliação na maternidade em 4 granjas distintas, por períodos de 2 semanas em cada unidade, e observaram uma enorme diferença no percentual de natimortos protocolados durante a análise observacional em comparação com os dados protocolados pelos funcionários da granja durante o mesmo período e em período anterior (Figura 1). Os dados referentes a natimortos no período prévio a observação oscilava entre 2,7 e 5,3%, e os dados reais durante a análise passaram para valores entre 7,4 e 9,7%. Dados semelhantes foram observados por Borges et al. (2003) em 4 granjas tecnificadas avaliadas. |
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| Qual a consequência
das falhas nos registros de natimortos? Como os natimortos compõem diretamente o total de nascidos por leitegada, é comum observar nas granjas que não registram o número real de natimortos uma redução no tamanho das leitegadas. Ou seja, para atingir a meta estipulada, muitos natimortos são omitidos nos registros de parto, conseqüentemente a meta é atingida, mas o tamanho das leitegadas fica comprometido. Nas unidades avaliadas por Schneider et al. (2001) vinham sendo observadas leitegadas em número bastante inferior ao real (Figura 2). No caso da granja 1, por exemplo, o total de nascidos estava em 10,1 e, durante a avaliação intensiva, esse valor subiu para 12,2 e manteve-se nesse patamar após o período de análise. Cabe salientar que nas avaliações realizadas também foram observadas falhas, principalmente quantitativas, nas anotações referentes a fetos mumificados. Conseqüentemente esse índice também contribuiu para o incremento no número total de leitões nascidos durante a avaliação. A situação nessas unidades antes da identificação das falhas de registros que originam as leitegadas pequenas, normalmente é calamitosa. Sem reconhecer possíveis falhas nas anotações dos dados de parto, a assistência técnica muitas vezes pensa em outras origens para as leitegadas pequenas como: genéticas, nutricionais, infecciosas, falhas no manejo de gestação, intoxicações, baixa qualidade das doses de sêmen, entre outras. Com isso, a abordagem inicial do problema, realizada pelo técnico durante a sua visita, fica totalmente mascarada. Assim, os técnicos tendem a procurar origens para as leitegadas pequenas nos setores de cobertura e gestação enquanto o problema muitas vezes está na maternidade com falhas nos registros dos partos. |
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| Qual o índice
"real" de natimortos que pode ser aceito? Deve ficar claro que é muito importante poder confiar nos registros qualitativos e quantitativos que acontecem nos partos. Somente de posse de dados confiáveis é que será possível avaliar a situação da unidade. Neste sentido, o setor de suínos da FAVET-UFRGS realizou várias observações referentes à confecção dos dados de partos com o objetivo de identificar o problema, quantificar o percentual de erros e sugerir medidas para melhorar as anotações dos dados. Na Figura 3 pode-se observar o índice real de natimortos observados em 10 granjas tecnificadas que foram submetidas a uma intensa avaliação no acompanhamento dos partos. Em todas elas foi observado um aumento na anotação de natimortos durante o período, com reflexo direto no tamanho da leitegada, tal e qual como foi quantificado na Figura 2. De imediato conclui-se que, após as análises sempre foram observados consistentes incrementos no tamanho das leitegadas, que na verdade aconteceram devido a correta anotação nos registros de natimortos, mumificados e, até mesmo nascidos vivos com baixa viabilidade (ou nascidos após o parto ter sido dado como encerrado). Em uma observação mais detalhada da Figura 3, nas granjas de 1 a 6 foi feita somente uma observação dos partos, sem nenhum tipo de interferência. Nessas granjas uma outra conclusão pertinente pode ser feita: o percentual de natimortos sempre esteve entre 7 e 9% nas diferentes unidades (com exceção da granja 1, que alcançou 5,3%, que apresentava somente matrizes de primeiro e segundo parto). Nas granjas 7 a 10 foi feita uma observação, com intervenção nos partos quando necessário, havendo nelas de 5,0 a 7,5% de natimortos. O questionamento seguinte é: o percentual de 7 a 9% é demasiadamente alto? Inicialmente pode-se dizer que sim. Mas como tomar medidas para enfrentar um preocupante índice de natimortos de 7-9% se nem sabia-se de sua existência devido a omissões nos dados de parto? Portanto, identificado que o problema existe, pode-se partir para recomendações em solucioná-lo. |
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| Os programas de computador empregados no gerenciamento dos dados de produção das granjas normalmente indicam, única e exclusivamente, o percentual de natimortos por leitegada. Entretanto, para realizar uma avaliação detalhada do problema na unidade, com vistas as recomendações para solucioná-lo, é importante diferenciar os tipos que compõem o percentual de natimortos protocolados. Os leitões natimortos podem ser classificados em pré-parto, intraparto e "pós-nascimento" (pós-parto). Academicamente, esse último (pós-nascimento) não deveria ser protocolado como natimorto e sim como mortalidade perinatal. Entretanto, sob condições práticas enquadra-se como natimorto. Porque é importante a diferenciação nos 3 tipos de natimortos? Dependendo do tipo de natimorto identificado será possível direcionar medidas de manejo específicas visando tratar o problema. Na Tabela 1 podem ser observadas as características a serem levadas em conta para o diagnóstico diferencial dos 3 tipos de natimortos. | |
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| pré-parto, intraparto e pós-nascimento,
respectivamente, dentro das diferentes granjas. O somatório dos leitões
natimortos dessas 3 figuras, no âmbito da mesma granja, perfaz o percentual
total de natimortos da Figura 3. Baseado nessas informações
pode-se afirmar que o percentual de natimortos pré-parto deve apresentar
valores inferiores a 1%, como observado nas granjas 3, 4, 5, 7, 8, 9 e 10.
Valores superiores, como observados nas granjas 1, 2 e 6, levam a suspeitas
de causas infecciosas ou de falhas no manejo no final da fase gestacional
(Figura 4). O percentual de natimortos intraparto deve oscilar entre 3 e
5%. Em granjas com valores superiores, seria possível atuar otimizando
o manejo de atendimento ao parto, para minimizar essas perdas, como seria
o caso das granjas 3, 5 e 8 (Figura 5). Os "natimortos pós-nascimento"
são leitões que nasceram vivos e morreram, possivelmente por
falta de assistência na fase neonatal ou por lesões cerebrais
decorrentes de anóxia ou hipóxia durante o parto. Pode ser observado que, no estudo observacional realizado nas granjas 1 a 6, o percentual dos "natimortos pós-nascimento" foi superior ao do estudo das granjas 7 a 10. Com exceção da granja 1, que contava somente com fêmeas de ordem de parto 1 e 2, e da granja 6, onde a qualidade de atendimento ao parto era muito boa, o percentual oscilou entre 1,05 e 1,71%. No caso das granjas 7 a 10 o percentual oscilou entre 0,25 e 0,53%. Cabe ressaltar que nessas granjas a equipe que realizou o trabalho, sempre que necessário, interferiu e auxiliou nos atendimentos aos partos. Conseqüentemente, em granjas que realizam um manejo satisfatório do neonato espera-se trabalhar com índices de natimortos pós-nascimento inferiores a 0,5%. |
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| Considerações
finais Fica evidente que, para avaliar os dados de natimortos de uma granja, deve-se ter plena confiança na forma com a qual os dados referentes ao parto são protocolados. Muitas vezes o ser humano que atua no atendimento ao parto não está suficientemente esclarecido e treinado para realizar suas tarefas. Nesse caso é comum observar falhas não intencionais nos registros de parto. Entretanto, em alguns casos podem ser observadas falhas intencionais nos registros, caracterizando a má fé na coleta e anotação dos dados. O treinamento correto dos funcionários pode significar para o técnico, confiança nos dados a serem avaliados, conseqüentemente, na interpretação correta dos valores das variáveis e a adoção de medidas para corrigir os problemas. Em caso de suspeita de alta mortalidade ou mesmo de valores muito abaixo dos esperados, preconiza-se proceder com avaliações para caracterização do problema. Tendo confiança nos dados a serem avaliados e suspeitando-se que o percentual de natimortos está alto, deve-se providenciar o diagnóstico com a identificação dos natimortos em pré-parto, intraparto e pós-nascimento. Baseado na identificação do tipo de natimorto será possível direcionar as atenções para aquela categoria que por ventura estiver com valor superior ao esperado. |
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