![]() |
![]() |
| Problemas relacionados
ao aparelho locomotor de reprodutores suínos Alisson Mezalira, Djane Dallanora, David E. Barcellos, Fernando P. Bortolozzo e Ivo Wentz O desenvolvimento corporal e muscular do suíno advindo do melhoramento genético sobrecarrega o aparelho circulatório e músculo-esquelético. Como conseqüência, tem-se uma série de alterações clínicas, principalmente relacionadas aos cascos do plantel de reprodução, que promovem perdas diretas e indiretas influenciando os índices produtivos das granjas. |
|
| As características anatômicas do casco e a presença da almofada plantar são adaptações do suíno para viver sobre superfícies sólidas. A sola do casco tem uma parte de tecido córneo e outra denominada de almofada plantar. A parede do casco é denominada muralha e é formada por tecido córneo em duas camadas: uma camada basal mole e uma de tecido cornificado, sendo uma região não vascularizada e não inervada. Internamente, está o córion, camada sensível, constituída de tecido conjuntivo altamente vascularizado que nutre várias partes do casco, incluindo o períoplo, sola e a almofada. Lesões nessa região provocam a dor e claudicação. | ![]() |
Claudicação |
|
| PERDAS ECONÔMICAS Os efeitos de problemas nos cascos são bastante variáveis sob os aspectos de faixa etária acometida e gravidade e podem manifestar-se de forma subclínica, por isso a avaliação exata dos prejuízos promovidos é dificultada. As perdas diretas, mais facilmente quantificáveis, relacionam-se com o descarte precoce de reprodutores. O percentual de descarte anual de fêmeas reprodutoras por lesões de aparelho locomotor variam entre 12 e 30%, sendo a segunda principal causa de eliminação desses animais do plantel. O descarte em rebanhos em formação é de 26% + 13% e em rebanhos estabelecidos é de 8% + 6%. Segundo estudos nos EUA, a taxa de descarte por alterações específicas do aparelho locomotor foi 4,1% (0,0-18,7) com média de OP de 2,93. Em estudo semelhante na Austrália, a taxa de descarte foi 9,3% (1,9-14,1) com OP 3,06. No Brasil, examinando machos considerados subférteis, encontrou-se 70% de incidência de lesões nos cascos, enquanto nos EUA, 7% dos descartes estão relacionados com problemas no aparelho locomotor em uma Central de Inseminação Artificial (CIA). Em animais de terminação, cerca de 20-25% dos animais eliminados prematuramente apresentam claudicações. Em machos de estações experimentais e do plantel de CIAs, encontrou-se, respectivamente, 30-40% e 24% dos animais sendo descartados por problemas de aparelho locomotor. Nas CIAs, os machos acometidos por esse tipo de distúrbio apresentam desde dificuldades de salto ao manequim para a coleta até alterações da qualidade espermática devido a picos febris esporádicos que podem afetar a espermatogênese.Em situações de manejo reprodutivo utilizando monta natural, as afecções do aparelho locomotor podem resultar em dificuldade de suportar o peso do macho durante a monta, podendo impossibilitar a cobertura. As perdas indiretas, mais dificilmente quantificáveis, relacionam-se com manifestações nem sempre perceptíveis à primeira análise. As dificuldades de locomoção nas fêmeas promovem a restrição de seus movimentos e isso pode resultar basicamente em dois distúrbios: menor consumo alimentar e problemas relacionados ao sistema gênito-urinário pela menor ingestão de água. As fêmeas com afecções do aparelho locomotor têm tendência à menor movimentação e à permanência na posição de decúbito ou sentadas. Isso resulta numa menor freqüência de ingestão de água e de micções. A estagnação prolongada da urina na bexiga favorece a multiplicação bacteriana e a ocorrência de infecções do trato urinário, que por sua vez estão relacionadas com casos de retornos ao estro e abortos. A posição de "cão sentado" adotada por alguns animais favorece a contaminação da vulva e vagina, o que também predispõe a infecções urinárias e do trato genital. As perdas gestacionais e de leitões durante a lactação pode ser aumentada devido aos problemas de aparelho locomotor. Os animais com dificuldades para levantar são mais predispostos à subnutrição, seja pela dor que limita seus movimentos ou pela dificuldade de competir pela alimentação com as demais fêmeas no caso de alojamento em baias coletivas e isso pode acarretar problemas como abortos e mortalidade embrionária e fetal. Além disso, o menor consumo alimentar pode levar à hipogalaxia e até agalaxia prejudicando assim o adequado ganho de peso e crescimento dos leitões lactentes, contribuindo com o aumento de perdas pré-desmame por esmagamentos. As infecções secundárias promovidas pela contaminação bacteriana das lesões nos cascos e a reação inflamatória local podem promover a liberação de prostaglandinas, as quais podem causar a luteólise, havendo redução de progesterona circulante, e podendo resultar em interrupção prematura da gestação. No abate, as perdas caracterizam-se pela condenação de partes e até de membros inteiros atingidos pelas lesões. |
|
| FATORES
PREDISPONENTES AO SURGIMENTO DE LESÕES DE CASCO: |
![]() |
Pododermatite |
|
| DEFICIÊNCIA
DE BIOTINA: A biodisponibilidade de biotina varia de acordo com os principais ingredientes da ração. Milho é uma boa fonte natural, mas dietas baseadas em cereais como a cevada que tem baixa disponibilidade podem não suprir suficientemente as quantidades para a integridade dos cascos. Isto faz com que a parede do casco seja mais suscetível ao trauma com o piso abrasivo. A resposta à suplementação de biotina na alimentação, no que diz respeito a lesões de casco, é muito variável devido a origem multifatorial das lesões. A deficiência de biotina promove maior fragilidade (amolecimento) do casco. A suplementação de 1160 g/kg durante a gestação e 2320 g/kg durante a lactação, comparado com uma dieta de 160 g/kg diminui a taxa de lesões de casco em leitoas. Entretanto, as lesões estabelecidas antes da suplementação em fêmeas de ordem de parto 2-3 não são curadas. Como medida preventiva, suínos pesando 25 kg ou mais podem receber suplementação desse nutriente. PISO: A qualidade do piso está positivamente correlacionada com o aparecimento de lesões, porém estas têm origem multifatorial. Quando mantidos sobre pisos inadequados, tanto a almofada plantar como os cascos sofrem desgastes excessivos e lesões que conduzem a claudicações de diferentes graus de severidade. A utilização de piso ripado nos sistemas intensivos de produção de suínos, com a finalidade de reduzir a mão-de-obra e melhorar a higiene das instalações trouxe consigo alguns inconvenientes. Quando o espaçamento entre as barras é inadequado para a faixa etária, podem ocorrer lesões nas coroas dos cascos e articulações mais próximas. Isso é agravado nos casos em que animais de faixas etárias diferentes convivem na mesma instalação como é o caso da maternidade ou baias de recria e terminação onde o animal permanece desde aproximadamente 25 kg até o abate. Os pisos excessivamente lisos e escorregadios não são desejáveis, pois não proporcionam desgaste do casco, propiciando ao crescimento exagerado. Além disso, tornam os animais propensos a lesões por possíveis quedas. A maior dificuldade observada quanto à instalação das lesões é em relação à qualidade dos pisos disponíveis para as construções. Existe uma dificuldade na padronização da construção dos módulos que constituem o piso ripado e, em geral, as barras são muito abrasivas e com as bordas cortantes e irregulares. Em alguns casos, os traumatismos não se manifestam sob a forma de rachaduras, mas ao exame mais detalhado do casco, podem ser detectadas manchas avermelhadas indicando que o tecido mole interno sofreu danos do tipo esmagamento com hemorragias. HIGIENE DAS INSTALAÇÕES: A umidade originada pelas fezes, urina e água desperdiçada pode induzir a um amolecimento do tecido córneo do casco predispondo a lesões e contusões. Além disso, baias úmidas e com acúmulo de fezes, aumentam a pressão de infecção facilitando o aparecimento de infecções secundárias. A superlotação de baias é um dos fatores que influenciam no acúmulo de matéria orgânica, juntamente com a qualidade e freqüência da limpeza realizada. TIPO DE ALOJAMENTO: O tipo de alojamento durante a recria e terminação pode influenciar a formação do esqueleto e o resultado desse processo somente fica evidente quando a idade dos animais aumenta. Por isso, em rebanhos com percentuais altos de problemas de casco deve-se verificar o piso e o tipo de alojamento na recria e terminação da granja de origem e também no pavilhão de reposição. Suínos alojados em baias têm significativamente menos lesões e paresia de membros posteriores que suínos com exercício limitado ou alojados individualmente. Além disso, animais alojados com espaço restrito tem uma redução na massa cortical óssea e maior debilidade muscular. A duração do confinamento está positivamente relacionada com o grau de lesões nas articulações. Machos sem restrição de movimentos apresentam menor índice de anormalidades conformacionais, como pernas arqueadas, flexão de carpo, problemas de aprumos em geral. O surgimento de instalações com lâmina d'água teve o objetivo de facilitar a limpeza das instalações e fornecer aos animais maior conforto nos períodos de temperaturas ambientais elevadas, porém podem trazer consigo todos os inconvenientes do excesso de umidade sobre os cascos dos animais. ORDEM DO PARTO: A medida que a idade dos animais aumenta, o peso corporal também aumenta e este é o fator que pode colaborar no aparecimento das lesões de casco, principalmente durante o final de gestação onde o maior peso é alcançado. Fêmeas muito pesadas com presença de lesões nos cascos, tem tendência a permanecerem muito tempo deitadas e parirem de leitões com baixo peso, além de favorecer infecções urinárias e abortos, aumentando a taxa de descartes. CLASSIFICAÇÃO DAS LESÕES |
|
| Fonte: Modificado de Sobestiansky et.al .(1981) 1.Rachadura vertical na região anterior, medial ou posterior da muralha do casco, a qual, geralmente, tem continuidade com rachaduras na sola ou na linha branca. 2.Rachadura oblíqua na região posterior da muralha, que pode ter continuidade ou estar associada a rachaduras entre a sola e a almofada plantar. 3.Rachadura profunda ao longo da linha branca podendo causar desprendimento da parede lateral da muralha. |
![]() |
| As lesões 1, 2 e 3, são encontradas com maior freqüência e, por se tratarem de rachaduras, atingem facilmente o tecido mole provocando as sensações dolorosas que causam a claudicação. Pelo fato do suíno ser biungulado, os cascos externos, especialmente dos membros posteriores, são geralmente os mais lesados, pois estes suportam a maior parte do peso corporal do animal e a sua posição anatômica os expõe mais facilmente às contusões. | |
| SINAIS
CLÍNICOS Existe uma tendência que as lesões de casco tenham origem traumática e em alguns casos podem assumir caráter epidêmico. As alterações são mais freqüentes nos membros posteriores. O principal sinal clínico é a claudicação e varia de acordo com a severidade e o tempo de existência das lesões e o estado fisiológico do animal. Animais em final de gestação são os principais acometidos, devido ao seu peso corporal e condição de alojamento, como gaiolas onde os movimentos são restritos ou em baias com menor área disponível por animal e piores condições de limpeza. |
![]() |
Rachadura do casco |
|
| O grau de severidade da lesão e da
claudicação varia de acordo com a localização
e profundidade da lesão. As lesões mais leves, que não
atingem os tecidos moles dos cascos, em geral não determinam o aparecimento
de alterações no comportamento do animal. Porém, quando
os danos atingem os tecidos que possuem nervos sensitivos, a claudicação
é visível e o animal pode adotar durante muito tempo a posição
de "cão sentado". CONTROLE, PREVENÇÃO E TRATAMENTO: A principal forma de controle e prevenção é a minimização dos fatores predisponentes e causadores. Diversas medidas podem ser adotadas para minimizar o aparecimento e o agravamento das lesões. Modificações nas instalações e algumas práticas de manejo podem ser utilizadas no sentido de diminuir as perdas diretas e indiretas. |
|
| Para o controle e tratamento de claudicações
causadas por lesões nos cascos existem várias fórmulas,
sendo que, na maioria delas, é utilizada a formalina (formol). A formalina, além de agir como anti-séptico local em lesões com contaminação bacteriana, tem a propriedade de endurecer os tecidos através do processo de desnaturação das proteínas, diminuindo ou eliminando, dessa forma, o quadro de claudicação.É importante lembrar que durante a manipulação de produtos químicos é indispensável a utilização de equipamentos de proteção individual como luvas e máscara. |
![]() |
Crescimento do
casco |
|
| Quanto aos fatores predisponentes relacionados
às instalações, recomenda-se corrigir os fatores ligados
ao piso, como irregularidades, abrasividade, pisos excessivamente lisos
e espaçamentos do piso ripado de acordo com a faixa etária.
A limpeza e desinfecção das instalações são
práticas que podem minimizar o aparecimento de lesões de casco. Existem várias soluções e pastas que em sua composição incluem formol, sulfato de cobre e cal hidratado, pode-se utilizar ainda pulverização de soluções de formol (comercial) com água e também em pedilúvio para tratamento e prevenção de lesões em cascos de lotes de animais. |
|
| A eficácia no tratamento de lesões
de casco, depende principalmente da identificação e eliminação
dos fatores que podem levar a ocorrência destas lesões. Tratamentos
preventivos e ou curativos a base de formol tem dado bons resultados, porém
em ambos os casos, a redução do aparecimento de lesões
de casco só vai ocorrer quando uma maior atenção for
dada aos fatores causadores. Basicamente, pode-se reduzir a gravidade dos problemas relacionados ao aparelho locomotor através da identificação e correção dos principais fatores predisponentes e do diagnóstico precoce das lesões e de seu tratamento adequado. |
![]() |
Ripado irregular |
|
| BIBLIOGRAFIA CONSULTADA: DEWEY, C.E. Disease of Nervous and Locomotor Systems In: Straw, B.E.; D'Allaire, S.; Mengeling, W.L.; Taylor, D.J. Diseases of Swine. 8 ed. Iowa State University. 1999. D'ALLAIRE, S.; DROLET, R. Culling and Mortality in Breeding Animals. In: Straw, B.E.; D'Allaire, S.; Mengeling, W.L.; Taylor, D.J. Diseases of Swine. 8 ed. Iowa State University. 1999. SOBESTIANSKY, Y.; BARCELLOS, D.E.S.N.; MORES, N.; CARVALHO, L.F.; OLIVEIRA, S. Clínica e Patologia Suína. 2 ed. Goiânia. 1999. LOPEZ A. C.; SOBESTIANSKY, Y.; COIMBRA, J. B. S.; AFONSO, S. B. Lesões nos Cascos e Claudicação em Suínos. In: BIPERS Informativo Pesquisa & Extensão, Publicação conjunta do CNPSA EMBRAPA e da Associação Rio-Grandense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural EMATER/RS, 1997. Comunicado Técnico: SOBESTIANSKY,J.; WENTZ, IVO; SILVEIRA, P.R.S.; MUNARI, J. Claudicação e qualidade dos cascos em suínos, Concórdia, SC, EMBRAPA CNPSA, 1981. 5p.(EMBRAPA-CNPSA.Comunicado Técnico, 21). |
|
![]() |
|
| volta | |