Relação entre aflatoxinas e prejuízos à imunização de suínos

David Barcellos

Uma preocupação atual e crescente em relação à eficiência das vacinas e programas de vacinação em granjas de suínos se refere aos possíveis efeitos negativos que as aflatoxinas exercem no desenvovimento da imunidade em animais vacinados. Essas toxinas são metabólitos tóxicos de algumas espécies de fungos dos gêneros aspergillus sp. e Penicillium sp. (PIVA & SANTI, 1982).

Leitão morto/aflatoxicose aguda

As aflatoxinas B1, B2, G1 e G2 ocorrem com freqüência em grãos utilizados na alimentação animal em diversos países, entre elas a aflatoxina B1, que é a mais abundante e tóxica nas contaminações naturais (OSWEILER, 1993, CHRISTENSEN et al., 1975). Surtos a campo têm sido reportados em praticamente todos os países que realizam suinocultura intensiva (OSWEILLER, 1993). Esse tipo de contaminação tem sido encontrada também em nosso meio, (FIORENTIN et al., 1985). Os autores pesquisaram a presença de Aflatoxina B1 em 129 amostras de milho coletadas em fábricas, cooperativas e granjas do estado de Santa Catarina entre abril e junho de 1995. Entre essas, 118 foram negativas e 11 positivas, os níveis encontrados oscilaram entre 10 e 100 ppb.

No nosso meio os casos clínicos de aflatoxicose em suínos e aves são freqüentes, de acordo com os registros de diagnóstico de laboratórios especializados (como o CPVDF- FEPAGRO, Eldorado do Sul e CDPA-UFRGS, P. Alegre, OLIVEIRA, 1996). A toxina é capaz de causar problemas em suínos quando ingerida pela ração em níveis acima de 50 ppb, sendo que entre 50-400 ppb costumam causar quadros clínicos crônicos ou inaparentes e acima de 400 ppb quadros agudos a superagudos. As formas clínicas agudas se associam com uma coagulopatia que cursa com hipoprotrombinemia, os sintomas variam entre ascite, anemia, icterícia e diarréia hemorrágica, sendo comum a morte dos afetados. Nos quadros crônicos os sintomas mais marcantes são de redução do consumo de ração associada com uma queda acentuada do crescimento (OSWEILLER, 1993).

Além desses prejuízos ao sistema hematopoiético, as aflatoxinas causam um efeito significativo no sistema imune. A aflatoxina B1 é a toxina mais comum e mais potente entre as aflatoxinas. Se liga covalentemente aos microssomos dos hepatócitos e é metabolicamente convertida por função oxidativa mista em pelo menos 7 metabólitos, um dos quais uma forma ativa, o epóxido 8-9 de aflatoxina B1. Essa forma ativa se liga aos ácidos nucleicos e proteínas celulares e dessa forma inicia as lesões primárias tóxicas ou carcinogênicas (OSWEILLER, 1993). O seu efeito imunossupressivo seria mediado pela ação na involução do timo e dos linfócitos derivados do timo, interferindo com a resposta imune do hospedeiro. Foi registrada também a inibição da atividade do complemento em cobaios intoxicados (PANANGALA et al.,1986).

O efeito que esse prejuízo potencial poderia representar em programas de vacinação já foram demonstrados experimentalmente em alguns casos. CYSEWSKI et al. (1978) mediram o efeito da adição de Aflatoxinas à dieta de leitões em relação ao desenvolvimento de imunidade após a vacinação contra a erisipela. Os resultados indicaram que o consumo da ração contaminada interferiu negativamente com o desenvolvimento da imunidade adquirida e aparentemente aumentou a severidade da infecção com o Erysipelothrix rhusiopathiae em leitões não vacinados e desafiados. Segundo os autores, esse tipo de efeito não seria seletivo (ou seja, não ocorreria para todos os tipos de infecções). Resultados um pouco diferentes foram obtidos testando o mesmo tipo de vacina nos experimentos executados por PANANGALA et al., 1986. Nesse caso, foram intoxicados leitões pelo fornecimento oral de doses de 500 e 300 ppb de aflatoxina B1, sendo que as diferenças mais significativas ocorreram nos níveis de complemento entre os animais intoxicados.

Esses estudos e a constatação da presença significativa de contaminação com aflatoxinas nas rações consumidas em nosso meio, indicam o risco potencial de que a mesma possa estar interferindo negativamente com programas de vacinação. Inexistem entre nós trabalhos visando a quantificação desse efeito. Por isso, seriam aconselháveis precauções para evitar que suínos sejam alimentados com rações contaminadas com essas toxinas.


Bexiga e Rim com coloração ictérica

REFERÊNCIAS CONSULTADAS:

CYSEWSKY, S.J.; WOOD, R.L.; PIER, A.C. et al. Effects of aflatoxin on the development of aquired immunity to swine erysipelas. American Journal of Veterinary Research, v. 39, p. 445-448, 1978.
FIORENTIN, L.; FIALHO, E.T.; FREITAS, A.R. Prevalência de aflatoxinas em milho utilizado na formulação de rações para suínos, no Estado de Santa Catarina. Nota Preliminar. II Congresso Brasileiro de Veterinários Especialistas em Suínos, ABRAVES, Rio de Janeiro, ANAIS, p. 147-148, 1985.
OLIVEIRA, S.J. de. Comunicação pessoal, 199625-135, 1993.
OSWEILEER, G.D. Mycotoxins. In. LEMAN, A.D., STRAW, B.E., MENGELING, W.L., D'ALLAIRE, S.; TAYLOR, D.J. Diseases of Swine, 7. Ed., The Iowa State University Press, p. 735-743, 1993.
PANANGALA, V.S.; GIAMBRONE, J.J.; DIENER, U.L. et al. Effects of aflatoxin on the growth performance and immune response of weanling swine. American Journal of Veterinary Research, v. 47, n. 9, p. 2062-2067, 1986.
PIVA, G; SANTI, E. Le micotossine nei mangimi. Selezione Veterinaria, v. 23, p. 323-338, 1982.
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