Prevenção e Tratamento da Infecção Urinária em Matrizes Suínas

Felipe Leonardo Koller; David Barcellos; Ivo Wentz; Fernando Bortolozzo
UFRGS – FAVET - SETOR DE SUÍNOS, Av. Bento Gonçalves, 9090, CEP 91540-000, Porto Alegre – RS


A infecção urinária (IU) em matrizes suínas é uma das mais importantes causas de redução da vida útil, falha reprodutiva, e morte súbita em porcas no mundo todo (PENNY, 1986; SOBESTIANSKY et al., 1995).

DEFINIÇÃO E ETILOLOGIA

Entende-se por IU a penetração e colonização patogênica das vias urinárias por microorganismos, podendo atingir as vias urinárias inferiores (uretra e bexiga), superiores (ureter e parênquima renal) ou ambas.
As bactérias mais comumente encontradas na IU são a Escherichia coli e o Actinobaculum suis (Actinomyces suis). A primeira é parte da microbiota urogenital e fecal. Já o A. suis é parte das microbiotas urogenitais de machos e fêmeas, onde o cachaço tem grande importância na transmissão venérea desta patologia (SOBESTIANSKY et al., 1995).

PREVENÇÃO


Qualquer fator que reduza a contaminação da vulva, aumente a produção de urina e leve a um incremento no número de micções diárias é benéfico na prevenção da IU. A seguir serão abordados alguns itens com importância na prevenção da IU:

1. Agentes etiológicos - Deve-se reduzir a pressão de infecção dos agentes causadores da IU (WENDT, 1998). Portanto, as celas devem ser limpas ao menos duas vezes ao dia, para evitar o acúmulo de fezes, que levam a contaminação fecal da vulva e períneo. A higiene nos setores de cobertura e gestação é seguramente o ponto mais importante para o controle da IU.

2. Doenças locomotoras
- Deve-se prevenir doenças do aparelho locomotor, principalmente nos cascos que, quando lesionados, levam a porca à não se levantar e se exercitar adequadamente, predispondo ao menor consumo de ração e água, induzindo à subnutrição e menor número de micções diárias (SOBESTIANSKY et al., 1995). Além disso, as fêmeas podem assumir a posição de cão sentado devido à dor nos cascos, o que aumenta o contato da vulva com fezes ou piso contaminado.Pisos úmidos, excessivamente abrasivos ou com superfície inadequada, devem ser corrigidos para prevenir a ocorrência de lesões.
Secreção vulvar característica de infecção urinária

3. Traumatismos - Todo tipo de lesão no aparelho urogenital pode favorecer a colonização bacteriana, ao reduzirem a ação das barreiras anatômicas protetoras (WENDT, 1998). Um exemplo é a laceração de vulva, comum em instalações com ferros soltos ou por brigas de fêmeas.

4. Qualidade e quantidade de água - A qualidade da água implica diretamente em maior consumo e, conseqüentemente, maior produção de urina. Águas quentes, frias ou sujas são ingeridas em menor quantidade. Água com pH < 5,7 e alto teor de nitratos podem predispor a IU. O acesso à água pelos animais deve ser fácil e as instalações devem ser bem dimensionadas para que as fêmeas possam ter suas necessidades hídricas saciadas adequadamente em cada fase reprodutiva (SOBESTIANSKY et al., 1995).

5. Formulação e qualidade da ração -
A composição da ração também é de grande relevância. Rações laxativas ou excessivamente ricas em fibras fazem com que seja produzido diariamente um grande bolo fecal, gerando acúmulo de fezes na região posterior das fêmeas, o que facilita a contaminação ambiental. Já as rações concentradas tendem a gerar constipação e baixa ingestão de água. A adição de sal na ração na proporção de 1 a 2% também estimula o consumo de água (WENDT, 1998), mas deve-se tomar o cuidado extra para que não falte água aos animais (o que poderia gerar um problema de intoxicação por sal). Além disso, rações com elevado nível de cálcio, fósforo e vitamina D resultam em uma alta eliminação de cálcio pela urina, predispondo à formação de cálculos, os quais protegem as bactérias da ação dos antimicrobianos e lesionam o epitélio da bexiga, facilitando desta forma a colonização.

6. Prática de manejo -
Fazer um condicionamento das matrizes para se levantarem normalmente entre 5 e 7 vezes ao dia, correspondendo aos momentos do arraçoamento, detecção de cio e outros momentos. Dessa forma, induzimos as porcas a se exercitar, ingerir mais água e urinar com maior freqüência.
Nos estudos realizados por Perestrelo et al. (1992) verificou-se que, sem a utilização de medidas medicamentosas de controle, somente corrigindo os fatores de risco, é possível reduzir a taxa de prevalência de IU em até seis vezes.

TRATAmENTO

Ao eleger um antimicrobiano (ANT) para o tratamento da IU em matrizes deve-se responder a quatro perguntas (SCOTT, 1991):

1.O ANT é efetivo contra o organismo causador da IU? Para aumentar as chances de sucesso do programa terapêutico para o tratamento da IU deve-se certificar da eficiência do ANT. Isto é possível com a execução de um antibiograma, que é recomendado especialmente nos casos com histórico de insucesso em tratamentos já realizados.
2.O ANT é tóxico para o sistema renal? Como o completo tratamento da IU pode se estender por até quatorze dias é fundamental que o fármaco utilizado não seja nefrotóxico.
3.O ANT tem rota renal primária de excreção? A droga administrada deve ser eliminada pelos rins de forma ativa e sem prévia metabolização.
4.O ANT é efetivo em pH alcalino? Na IU o pH da urina fica entre 6,5 a 8. Caso a infecção seja causada pelo A. suis, o pH pode subir para 8 a 9.
Tratar a IU pode ser frustrante, principalmente nos casos crônicos. Para uma boa resposta à

Penicilinas: são as drogas mais freqüentemente utilizadas para o tratamento da IU. As grandes vantagens de utilizar penicilinas são: o pH alcalino potencializa sua ação, possuem efeitos colaterais sistêmicos mínimos, não são nefrotóxicas e possuem uma alta taxa de excreção renal.
A ampicilina é o ANT que melhor preenche estes requisitos, além de possuir amplo espectro de ação e ser segura na utilização em matrizes prenhas. Pode ser utilizada com uma aplicação diária, na proporção de 11mg/kg, via intramuscular, durante três a cinco dias (SCOTT, 1992).
A penicilina natural atua em bactérias Gram-positivas principalmente, e deve ser utilizada em três aplicações: nos dois primeiros dias de tratamento uma aplicação diária de Penicilina G Procaina, na dose de 5.000 UI/Kg, e no terceiro dia do tratamento uma aplicação de Penicilina G Benzatina na dose de 5.000 UI/Kg (SCOTT, 1992), lembrando que este é um protocolo não recomendado para animais gestantes.
Tetraciclinas: são medicamentos com rápida ação e amplo espectro, no entanto não são tão efetivos frente a bactérias Gram-positivas como as penicilinas. Deve ser lembrado que as tetraciclinas possuem ação bacteriostática, apresentando antagonismo quando associadas às penicilinas.
Scott (1991) menciona que este grupo farmacológico é primariamente excretado pelo sistema renal, mas, é contra-indicado no tratamento de doença renal devido ao seu potencial nefrotóxico e reduzida ação em pH alcalino.
Duas aplicações diárias na dose de 2,2 mg/kg é o suficiente para manter bons níveis sanguíneos da droga, por 3 a 5 dias.

A clortetraciclina e oxitetraciclina na dose de 600 mg de princípio ativo por tonelada de ração durante 14 dias também podem ser utilizados (MUIRHEAD, ALEXANDER, 1997).
Outros Antimicrobianos: a utilização do outros antimicrobianos; tratamento da IU serão a seguir analisados:
A lincomicina é recomendada na dose de 10 mg/kg, com uma a duas aplicações intramusculares diárias e tem ação contra o A. suis (MUIRHEAD, ALEXANDER, 1997).
O ceftiofur deve ser aplicado diariamente, por 3 dias consecutivos, numa dose de 3 mg/kg (DREAU, LAVAL, 2000)
A norfloxacina pode ser administrada por via oral, na dose de 7 a 14 mg/kg/dia por 10 dias (BARCELLOS, SOBESTIANSKY, 1998).
A enrofloxacina é utilizada na dose de 2,5 mg/kg, por via intramuscular, com uma aplicação diária durante 3 a 5 dias (POMMIER et al., 2002).
Acidificantes: o tratamento de animais com IU, dependendo da prevalência na granja, pode ser uma tarefa penosa, podendo implicar em aplicações individuais dos medicamentos por vários dias.
Na prevenção, além das atividades de manejo propostas, podem incluir a aplicação de acidificantes da urina aplicados na ração.
O uso de acidificantes da urina como o cloreto de amônio, vitamina C e o ácido cítrico não têm efeito terapêutico na IU, mas são recomendados para inibir o crescimento de bactérias patogênicas, em especial o A. suis, além de estimularem maior consumo de água.

O cloreto de amônio pode ser adicionado na ração na dosagem de 2,5 a 3 kg/ton por um período de 10 a 14 dias, sem gerar qualquer prejuízo para a matriz suína (SOBESTIANSKY et al., 1999) e o acido cítrico 70 mg/animal/dia por até 50 dias (STRAW et al., 1999).

Acidificantes podem ser utilizados como medida preventiva à ocorrência de endometrite com hipogalaxia originada por bactérias presentes na urina, através da adição de cloreto de amônia 11 dias antes da data prevista do parto (SOBESTIANSKY et al., 1995). Vale lembrar que os acidificantes potencializam as tetraciclinas ao acidificarem a urina.
Bexiga: mucosa com lesões congestivas tipicas de cistite
CONCLUSÃO

O sucesso de um programa de controle de IU, envolvendo somente a correção dos fatores de risco ou envolvendo a correção dos fatores de risco e a utilização simultânea de quimioterápicos, depende basicamente do proprietário, uma vez que é ele que decidirá se e quais os fatores de risco que serão corrigidos .

REFERÊNCIAS consultadas:

Barcellos, D. E. S. N.; Sobestiansky, J. Uso de antimicrobianos em suinocultura. Goiânia: Art3, 1998. 103p. Dreau, D.; Laval, A. Effect of ceftiofur in the control of urinary infection in sows: Resultus of a field trial in a french farrow to finish unit. In: CONGRESS OF THE INTERNATIONAL PIG VETERINARY SOCIETY, 16., 2000, Melbourne, Australia. Proceedings. Melbourne, Australia: International Pig Veterinary Society Congress (IPVS), 2000. p. 105.Muirhead, M. R.; Alexander, T. J. L. Eds. Managing and treating disease in the dry period. In: _____. Managing pig health and the treatment of disease: a reference for the farm. 1ª Ed., Sheffield, 5M, 1997. cap. 7, p. 203-205.Penny, R. H. C. Major cause of sow deaths increasing. International pigletter, V. 5, No. 12, 1986.Perestrelo, R. Contribuição para o estudo epidemiológico das afecções das porcas exploradas intensivamente em Portugal. O Suinocultor, v.6, p.19-24, 1990.Pommier, P. et al. Efficacy of injectable enrofloxacin in the treatment of urinary infections in sows. In: CONGRESS OF THE INTERNATIONAL PIG VETERINARY SOCIETY, 17., 2002, Ames, USA. Proceedings. Ames, USA: International Pig Veterinary Society Congress (IPVS), 2002. Scott, A. Diagnosing and controlling urinary tract infections caused by Eubacterium suis in swine. Veterinary medicine, feb., p.231-238, 1991.Scott, A. Porcine urogenital disease. Veterinary clinics of north america: food animal practice, V. 8, No. 3, 1992.Sobestiansky, J. et al. Infecção urinária de origem multifatorial na fêmea suína em produção. Suinocultura dinâmica, V. 16, 1995. Sobestiansky, J. et al. Clínica e patologia suína. 2. ed., Goiânia: Art 3, 1999. 464 p. Straw, B. E. et al. Eds. Diseases of the urinary system. In: Drolet, R.; Dee. S. A.. Diseases of the swine. 8. ed., Ames, Iowa State University, 1999. ca3p. 63, p. 969-970. Wendt, M. Urinary disorders of pigs. In: CONGRESS OF THE INTERNATIONAL PIG VETERINARY SOCIETY, 15., 1998, Birmingham, England. Proceedings. Birmingham, England: International Pig Veterinary Society Congress (IPVS), 1998. p. 195-201.

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