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| É possível
realizar uma inseminação artificial ao dia em suínos
sem prejudicar o desempenho reprodutivo ? Paulo E. Bennemann, Fernando Bortolozzo e Ivo Wentz A inseminação artificial (IA) é uma biotécnica que surgiu como uma ferramenta capaz de melhorar a produtividade e rentabilidade de granjas de suínos tecnificadas. As vantagens advindas da IA, principalmente no que se refere a ganho genético (maior rendimento de carcaça, melhoria da eficiência alimentar, maior ganho de peso), são indiscutíveis. Segundo Weitze (2000), mundialmente, a IA representa mais de 80% das coberturas realizadas em suínos, demonstrando a importância desta biotécnica na suinocultura moderna. No Brasil, entretanto, em apenas 51% das coberturas, em granjas tecnificadas, a IA é aplicada (Wentz et. al., 2000). Na IA, é utilizado um número inferior de espermatozóides na dose inseminante (3 bilhões), quando comparada à monta natural (até 100 bilhões) (MN), há a necessidade de atenção especial principalmente no que diz respeito ao momento e a freqüência da sua execução. Na prática, é comum a realização de 3 ou até mesmo 4 inseminações por estro por fêmea com intervalos de 8-16 horas entre as mesmas. Isso se deve a dificuldade de prever o momento ideal da IA, ou seja, o momento mais próximo possível da ovulação. O aumento do intervalo entre as IAs com conseqüente redução do número de doses inseminantes para realizar a cobertura em uma matriz, é alvo de estudos. Tal possibilidade traria benefícios relacionados à diminuição do custo da fêmea inseminada e melhor aproveitamento dos machos geneticamente superiores. Pesquisas demonstram que é possível obter boas taxas de fecundação inseminando pluríparas em intervalos de 24 horas (Soede et al., 1997). Segundo Castagna (2002), IAs realizadas em intervalos de 24 horas, em multíparas, não diferiram daquelas realizadas com intervalos de 8 e 16 horas para taxa de retorno ao estro, taxa de parto e número de leitões nascidos totais.(Tabela 1). |
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| Através destes resultados é possível inferir que uma população espermática permanece viável no trato genital feminino por até 24 horas, sendo possível a realização de uma única IA diária. No entanto, aparentemente, o mesmo não se atribui a leitoas, havendo a necessidade de uma IA com intervalo de 12 horas (Waberski et al., 1994). Portanto, em pluríparas, de acordo com a tabela 1, é possível reduzir em até 33% a utilização de doses inseminantes, ou seja, aplicar, em média, 2 doses inseminantes/matriz coberta (Tabela 1). No entanto, para que a rentabilidade de um sistema de IA não seja revertida, trazendo transtornos reprodutivos devido a má utilização de estratégias de IA é necessário que se tenha controle absoluto em variáveis como: qualidade do ejaculado original, qualificação técnica da equipe, material utilizado na coleta, avaliação e processamento do sêmen, qualidade da água e do diluente, período e temperatura do armazenamento da dose inseminante. O conjunto desses fatores irá determinar a qualidade final da dose inseminante e conseqüentemente o desempenho reprodutivo do plantel. No entanto, freqüentemente, estes fatores não são respeitados, gerando desta forma, doses inseminantes de qualidade duvidosa. Bennemann (1998) avaliou a motilidade espermática de doses inseminantes provenientes de 5 Centrais de Inseminação Artificial (CIAs) durante 96 horas de armazenamento (Figura 1). O resultado desse experimento demonstrou uma grande variabilidade da qualidade das doses inseminantes produzidas nas CIAs avaliadas. Somente duas CIA's, das cinco avaliadas, teriam condições de fornecer doses inseminantes para um programa de IA com intervalos de 24 horas. | |
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| Figura 1: Motilidade
espermática de doses inseminantes provenientes de 5 CIA's durante
o período de 96 horas de conservação. O objetivo desse artigo é detalhar pontos críticos associados a produção de doses de sêmen que impediriam, nas condições práticas, a realização de inseminações, em pluríparas, com um intervalo de 24 horas. Qualidade do ejaculado original: O reprodutor doador de sêmen é diretamente responsável pela qualidade da dose inseminante. No entanto, observa-se uma variabilidade entre os reprodutores, o que, conseqüentemente, pode interferir na taxa de parto e tamanho da leitegada. Em uma CIA, é possível observar reprodutores que mantêm maior viabilidade espermática, in vitro, em relação a outros. Assim, é possível a utilização destes reprodutores em momentos estratégicos, como finais de semana. Fatores relacionados a sanidade do reprodutor e a maneira como a coleta de sêmen é conduzida podem interferir de forma negativa na qualidade do ejaculado. Para que um ejaculado possa ser processado e empregado em um programa de IA é necessário que este possua características que atendam a um padrão mínimo estabelecido em uma avaliação macro e microscópica. Parâmetros como motilidade e concentração espermática, bem como a morfologia espermática, são fatores determinantes no que se refere a qualidade de um ejaculado. Talentos humanos: A equipe que trabalha em uma CIA é outro ponto importante ao qual muitas vezes não é dada a devida atenção. A equipe deve ser qualificada, ou seja, deve ser uma equipe treinada para a função. No entando, freqüentemente, encontramos pessoas despreparadas realizando tarefas de coleta ou avaliação e processamento de sêmen, principalmente em CIAs pequenas. É interessante que as pessoas ligadas a CIA estejam conscientes da importância do seu trabalho, pois deles depende, em grande parte, a qualidade da dose inseminante utilizada na granja e, conseqüentemente, do desempenho reprodutivo do plantel. O treinamento e aperfeiçoamento da mão-de-obra da CIA devem ser permanentes. Outro ponto fundamental é que todas as pessoas ligadas ao setor conheçam a rotina de trabalho, desde a coleta do sêmen, sua avaliação e processamento. Este ponto é importante para que seja possível estabelecer escalas de férias, folgas e, até mesmo, redistribuição de pessoal em casos de afastamentos por motivos de saúde ou demissionais. Cada área (laboratório ou alojamento de reprodutores) deve possuir um coordenador e um substituto para executar as tarefas, caso contrário, em situações emergenciais, a produção de sêmen pode ser prejudicada pela inexperiência dos operadores. Todos os procedimentos devem receber supervisão direta do médico veterinário responsável. Material utilizado: O tipo de material que entra em contato direto com o sêmen é outro fator que pode alterar a qualidade das células espermáticas. Scheid et al. (1995) e Ko et al. (1989) observaram um efeito tóxico da luva de coleta de látex sobre o espermatozóide, o qual apresentava uma motilidade próxima a zero após um minuto de exposição à luva. A queda na qualidade do sêmen também pode ser observada quando permanecem resíduos químicos após limpeza com detergentes, álcool ou desinfetantes ou mesmo contaminação bacteriana, de materiais e equipamentos utilizados para a manipulação do sêmen. Dependendo da produção da CIA, é interessante que se utilize material descartável, o que também irá otimizar o fluxo de trabalho. No entanto, é necessário avaliar o custo destes materiais para CIAs de pequeno porte. Por outro lado, materiais como lâminas e lamínulas com resíduos (detergente, sujidades) podem mascarar uma avaliação microscópica do sêmen, criando artifícios como aglutinações e baixa motilidade, o que provocaria descarte deste ejaculado. Caso não seja possível a utilização de material descartável, é necessário que todo material seja bem lavado e enxaguado, evitando desta forma a permanência de resíduos. A contaminação química de materiais plásticos como bisnagas e sacos plásticos de diluição, assume uma importância grande no que se refere a manutenção da qualidade espermática. Dependendo da qualidade do plástico utilizado na confecção deste material, ele pode causar um efeito tóxico tardio, ou seja, no momento da avaliação e processamento o sêmen apresenta-se bom, no entanto, após um período de exposição com esse material, a dose inseminante se torna de baixa qualidade. Assim, é importante que seja conservado no laboratório uma amostra de toda partida de sêmen para que eventuais problemas como este sejam detectados antes que haja interferência nos parâmetros reprodutivos do rebanho. Devido a normas de biosseguridade, todo o material a ser introduzido na CIA deve passar por um processo de desinfecção, normalmente a fumigação é a mais usada. Este procedimento deve ser reavaliado quando se trata do material que entra em contato direto com o sêmen. Este material deve ser submetido a outro tipo de desinfecção, preferencialmente que não deixe resíduo. Uma alternativa para esta desinfecção é a utilização de álcool 70°GL que deve ser pulverizado sobre a embalagem do material a ser introduzido na CIA. |
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| Qualidade da água e do diluente empregados: A qualidade da água empregada em uma CIA tem um efeito direto na viabilidade e fertilidade da célula espermática. Segundo Flowers (1996), este problema estaria associado a contaminação bacteriana, presença excessiva de metais pesados e osmolaridade sub-optimal. Problemas com a água empregada em CIA's são bastante comuns e requerem atenção especial. A água empregada no preparo de diluentes e enxágüe de material deve ser, obrigatoriamente, destilada e deionizada. Outro ponto importante é a qualidade do diluente empregado. | ![]() |
Exame de morfologia
espermática |
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| Deve-se dar atenção especial
a qualidade dos componentes utilizados e aos prazos de validade e eventuais
faltas de controle na qualidade das partidas comercializadas. Flowers (1996)
observou que diluentes de baixa qualidade podem reduzir a taxa de parto
em 17% e o tamanho da leitegada em 1,2 leitões. Segundo o autor,
estas perdas estariam associadas a perdas da capacidade tamponante do diluente
e a produção de radicais livres que poderiam prejudicar a
qualidade da dose inseminante armazenada. Qualidade dos equipamentos utilizados para avaliação do ejaculado: A aprovação ou descarte de um ejaculado está diretamente relacionada ao julgamento do técnico responsável pela avaliação do mesmo. Neste momento é necessário mão-de-obra qualificada e equipamentos, principalmente no que se refere a microscopia, de boa qualidade. De nada adianta pessoal qualificado se as condições da CIA não permitem uma avaliação adequada dos ejaculados e vice-versa. |
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| Na rotina de uma CIA, normalmente 4 a 6% dos ejaculados in natura e 1 a 2% dos processados são descartados por problemas de qualidade espermática (motilidade inferior a 70%, coleta mal conduzida, má qualidade da diluição, problemas com diluentes, problemas com a água, avaliação do sêmen in natura mal conduzida, entre outras). No entanto, o que se observa, na prática, é um aproveitamento de quase 100% dos ejaculados, o que reflete dúvidas na avaliação do mesmo e uma certa insegurança do operador em tomar a decisão de descarte ou não do sêmen, até mesmo por eventuais cobranças que possam ocorrer. | ![]() |
IA - Inseminação Artificial |
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Temperatura e tempo de armazenamento da
dose inseminante: O espermatozóide suíno, diferente de outras
espécies, é bastante sensível a temperaturas de conservação
abaixo de 15°C. Qualquer variação abaixo desta faixa
pode comprometer a qualidade da dose inseminante. Desta forma, é
importante que o armazenamento se dê, preferencialmente, a uma temperatura
de 15-18°C. Oscilações na temperatura de conservação,
tanto para mais como para menos, resultam em diminuição
da taxa de sobrevivência espermática. Durante o período
em que a dose é armazenada, esta deve ser agitada, suavemente,
pelo menos uma vez ao dia. A re-suspensão dos espermatozóides
no diluente, durante o armazenamento, parece aumentar o tempo de conservação.
Rodriuez-Gil e Rigau (1995) demonstraram que o armazenamento do sêmen
suíno a 16-17°C sem agitação, por 48 horas, resultou
em um decréscimo na viabilidade das células espermáticas,
e que o mesmo não foi observado nas amostras submetidas a uma agitação
diária. |
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| Para que este procedimento seja efetivo, deve ser colocado no interior da conservadora um termômetro de máxima e mínima, sendo os dados de temperatura anotados diariamente em uma planilha própria para este fim. Como foi abordado anteriormente, a evolução natural da IA na suinocultura vai em direção a redução do número de espermatozóides por fêmea por ano. Trabalhos de pesquisa demonstram a possibilidade de redução do número de inseminações por matriz, sem o comprometimento da performance reprodutiva, no entanto, para que isso ocorra é necessário que a dose inseminante utilizada seja de ótima qualidade, ou seja, que tenha a capacidade de manter sua característica fecundante até o momento da sua utilização. | ![]() |
IA - Local de deposição do sêmen com adequada fuxação da pipeta |
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