É Viável Implementar a Inseminação Artificial Uterina em Suínos?

Daniela Weber, Paulo Eduardo Bennemann, Wald´ma Sobrinho Amaral Filha, Ivo Wentz e Fernando Pandolfo Bortolozzo
UFRGS – FAVET - SETOR DE SUÍNOS, Av. Bento Gonçalves, 9090, CEP 91540-000, Porto Alegre – RS


No primeiro volume da revista Suinocultura em Foco, publicada em outubro de 2001, abordamos o tema IA Uterina (IAU): realidade ou ficção. De lá para cá, mundialmente, inúmeros grupos trabalharam nesse tema e vários progressos técnicos foram alcançados. Esses progressos permitiram estabelecer o número mínimo possível de espermatozóides empregados por dose, o protocolo ideal para realizar as inseminações e os detalhes na tecnologia de produção das doses inseminantes. Além disso, ficaram bem estabelecidas as necessidades e cuidados no treinamento e capacitação técnica do ser humano responsável por realizar todos esses procedimentos. No dia-a-dia da linha de inseminação havia a expectativa de demora em implantar o cateter, bem como a dificuldade em passar os anéis cervicais permitindo a deposição uterina do sêmen. Os estudos realizados nos últimos 3 anos permitiram a quebra de muitos paradigmas técnicos envolvendo a IAU. Entretanto, permanece a pergunta: É viável implementar essa tecnologia comercialmente na suinocultura tecnificada?

Visando realizar uma análise bio-econômica do processo, realizou-se uma simulação dos custos de produção de doses para a IA tradicional (IAT) e IAU. Para a IAT, a simulação foi realizada analisando os custos de produção de uma Central de IA (CIA) com 50 machos alojados e com a produção de 8 mil doses inseminantes ao mês (doses com 3 bilhões de espermatozóides). No caso da IAU, foi simulada uma CIA que produziria a mesma quantidades de doses ao mês com a produção de 80% de doses para IAU (1 bilhão de espermatozóides) e 20% de doses de IAT (3 bilhões de espermatozóides, para empregar em leitoas). Com isso, a CIA passou a operar com somente 20 machos. Ambas as CIAs estavam com a idade dos reprodutores estabilizada, mantendo uma taxa de reposição de 50% ao ano e trabalhavam somente com machos terminais de uma linhagem a um custo de R$ 3.000,00 cada reprodutor.

Avaliando o custo das doses produzidas na CIA que produzia doses para IAU, obviamente, que o valor bruto associado aos reprodutores foi reduzido (custo de amortização dos machos, ração, medicamentos, vacinas, manutenção e amortização de instalações). Os custos relacionados à mão-de-obra foram mantidos nas duas CIAS, embora tenha havido uma sutil redução das atividades na CIA com IAU, optou-se por uma melhor remuneração da equipe devido ao trabalho mais especializado. Com relação ao material de consumo há também uma sutil redução nos custos com a IAU devido, principalmente, à redução do volume da dose inseminante e no número de coletas. O custo final da dose produzida, bem como a participação percentual de cada componente, na CIA com 50 machos para IAT e na CIA com 20 machos para IAU é apresentado na Figura 1. Adicionalmente foram simulados dois cenários complementares na CIA com 20 machos para IAU: em um cenário foram empregados machos de maior valor genético a um custo de R$ 8.000,00 e no outro cenário, além de manter machos de maior valor genético, empregou-se um diluente de sêmen de longa duração a um custo cinco vezes superior ao empregado na IAT. Nos dois primeiros cenários, observou-se que o custo da dose na IAT e na IAU ficaram em R$ 4,24 e R$ 2,85, respectivamente. Entretanto, nos dois cenários complementares da IAU o custo da dose variou de R$ 4,46 a R$ 5,00 (Figura 1).

Tabela 1: Custo estimado por fêmea coberta através da inseminação artificial tradicional (IAT) e intra-uterina (IAU) com diferentes pipetas/cateteres, levando em consideração que foram realizadas 2,2 inseminações por estro.
Partindo do custo das doses IAT e IAU, foi simulado o custo estimado por fêmea coberta (Tabela 1). Foi observado que, ao utilizar-se uma DI similar, sem agregação de valor, na IAT (custo DI R$ 4,24) e na IAU (custo DI R$ 2,85), o custo final por fêmea coberta ficou muito próximo, R$ 10,55 e R$ 10,45, respectivamente. No entanto, quando a DI utilizada tem agregada em seu valor o custo de machos geneticamente superiores (custo DI R$ 4,46) e o uso de diluentes de melhor qualidade (custo DI R$ 5,00), o custo da fêmea coberta passa para R$ 13,99 e R$ 15,18, respectivamente.

Baseado nessas simulações, é possível concluir que, o emprego da IAU, quando comparado a IAT, não proporciona uma redução direta expressiva no custo de cobertura das matrizes. Ou seja, aquela redução nos custos de cobertura obtidos quando se passou da monta natural para a IAT, tenderá a não ocorrer se, por ventura, a IAT for substituída pela IAU. Dentro das disponibilidades do momento, no máximo, o custo da fêmea coberta na IAU ficará próximo a IAT, mas não expressivamente inferior. Com isso, a grande expectativa com o emprego da IAU ficará relacionada aos ganhos genéticos oriundos de machos geneticamente superiores, conforme pode ser observado na simulação onde machos de maior valor genético associado a diluente de melhor qualidade foram empregados. Por exemplo, se ao empregar a IAU com um custo de cobertura da ordem de R$ 15,18 (utilizando a DI superior) e produzindo 10 terminados/fêmea/coberta, o custo da cobertura por terminado será R$ 1,52. Na IAT o custo da cobertura por terminado será R$ 1,06, ou seja há uma diferença de R$ 0,46 por terminado oriunda do custo de cobertura, que deve ser amortizada no ganho genético diferenciado desses animais.

Entretanto ao empregar a IAU, deve-se estar atento às mudanças implícitas no emprego da tecnologia, pois, a partir de um ejaculado, produz-se 70-90 doses. Possíveis falhas na produção das doses terão uma resposta proporcionalmente maior quando comparadas a IAT. Além disso, uma atenção cada vez maior deverá ser dada ao treinamento e qualificação do ser humano empregado no processo, seja na CIA no processamento dos diferentes ejaculados, seja na granja procedendo as inseminações.
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