inseminação uterina em suínos: Realidade ou ficção

Na década de noventa o emprego da inseminação artificial (IA) no suíno teve sua aplicação consolidada no Brasil e no mundo. Nesse período, a tecnologia foi aperfeiçoada e uma série de novos conceitos e equipamentos foram desenvolvidos. Aqui se pode citar a melhora obtida nas doses de sêmen produzidas, devido ao melhor treinamento do pessoal e a qualidade dos equipamentos à disposição nas centrais; os novos conceitos sobre a fisiologia reprodutiva da fêmea, obtidos com o emprego da ultra-sonografia e o crescimento profissional das equipes que executam a biotécnica nas granjas. Apesar de toda a otimização no emprego da IA descrita, uma série de pesquisas ainda vem sendo desenvolvidas na área, com ênfase na descoberta de preditores do momento da ovulação, desenvolvimentos de diluentes que permitam o armazenamento de doses por um período superior a 3 dias e novas técnicas que levem a um maior aproveitamento dos ejaculados produzidos. Otimizar o uso dos ejaculados produzidos semanalmente em uma central de IA é uma tarefa difícil de se por em prática. De um lado, doadores com idade superior a 13-15 meses podem ser submetidos, em sua grande maioria, a um regime de duas coletas semanais. Entretanto a demanda de sêmen na maioria das centrais concentra-se, devido às datas de desmame, na segunda e terça feira, sendo difícil se alcançar uma média de 1,7-2,0 saltos por doador/semana. Devido a essa demanda concentrada na produção das doses, é comum que as centrais tenham uma média de 1,1-1,3 saltos por doador/semana, ou seja produzindo um número de doses inferior a capacidade dos doadores.

Por outro lado, a tecnologia utilizada na IA nos últimos 30 anos prevê o emprego de doses inseminantes que contenham 2,5 a 3,5 bilhões de espermatozóides. Nesse sentido foram propostas algumas alterações na técnica de deposição do sêmen no trato genital feminino (TGF), que permite uma drástica redução no número de espermatozóides por dose: é a IA uterina (IAU). Através dessa tecnologia uma dose inseminante, de volume reduzido, é depositada diretamente no corno uterino. Na técnica tradicional de IA, após a pipeta ser fixada na cérvix, procede-se com a infusão da dose.Na IAU também se procede com a fixação da pipeta na cérvix, entretanto, após essa ação desliza-se um cateter, pelo interior da pipeta tradicional fixada, por uma distância de 10-20cm no interior do TGF.
Ao encontrar resistência ou ao alcançar a distância desejada, suspende-se a introdução do cateter e promove-se a infusão da dose inseminante. Essa atividade toda é possível de ser realizada com uma fêmea em estro, quando imobilizada na presença do cachaço. Sob condições práticas, Watson et al. (2001) demonstraram que, na IAU a dose inseminante empregada pode ter 1 bilhão de espermatozóides sem que haja uma redução no desempenho reprodutivo, quando comparada a doses com 2 e 3 bilhões empregando-se a tecnologia tradicional. Como foi dito, além de uma redução no número de espermatozóides, há uma redução no volume final da dose para 50-70ml. Portanto a IAU permitiria uma redução imediata no número de espermatozóides necessários por dose inseminante, tendo um impacto direto na otimização do uso dos ejaculados. Apesar dessa vantagem direta, a tecnologia tem algumas limitações. O emprego da IAU fica restrito à matrizes com mais de dois partos, sendo desaconselhável, com as tecnologias que se dispõe até o momento, para leitoas e primíparas. Uma outra limitação esta associada à tecnologia de produção das doses de sêmen.

Por se trabalhar com doses que obrigatoriamente devem conter uma quantidade reduzida de espermatozóides, não sendo possível aceitar grandes variações no número de células por dose, é necessário implementar nas centrais de IA uma técnica precisa na determinação da concentração espermática. Uma outra limitação é a deposição da dose no TGF. A tecnologia em si não é difícil, mas requer, como qualquer outra nova técnica a ser implementada, um bom treinamento da equipe. Alguns pesquisadores acreditam que algumas particularidades necessárias à execução dessa tecnologia sejam um empecilho na implementação da IAU em propriedades menores. Com relação ao custo-benefício, ainda não é possível se estabelecer um parâmetro final. Já existem algumas empresas que estão disponibilizando a tecnologia no nosso meio, entretanto o custo final, principalmente dos cateteres, ainda não esta totalmente definido.

Indiscutivelmente a IAU permite uma redução no número de espermatozóides por dose otimizando o uso dos doadores de sêmen. A viabilidade no emprego comercial dessa tecnologia deverá ser testada nos próximos anos. Cabe ressaltar que além do emprego da IAU, pode-se otimizar o uso dos doadores em centrais de IA de suínos através de uma maior racionalização no fluxo das coletas de sêmen, aumentando o número médio de coletas realizadas por semana, chegando mais próximo do potencial biológico de produção espermática dos doadores.
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