Cuidados com as marrâs para maximização da produtividade desta categoria

Luis Eduardo da Silva², Vladimir Farias Borges¹, Fernando P. Bortolozzo¹, Ivo Wentz¹
1. Setor de Suínos - Faculdade de Veterinária - UFRGS


Introdução

Em uma granja estabilizada, considerando-se uma taxa de reposição anual de 35 a 55%, as marrãs compõem 15 a 20% dos grupos de parição, com isso justificam-se todos os cuidados para que esta categoria possa mostrar seu potencial de melhorar a produtividade e manter a eficiência reprodutiva geral do plantel a mais alta possível. É importante salientar que os índices subseqüentes de produtividade são dependentes da preparação das marrãs desde a criação dos animais na granja de origem até o término da primeira lactação. Portanto, um manejo adequado das marrãs nessa fase é muito importante para evitar falhas na organização dos grupos de cobertura e na produtividade da categoria. Devido ao alto custo das fêmeas de reposição busca-se reduzir as perdas pré-cobertura, na cobertura e gestação, e maximizar a produção e a longevidade destas fêmeas. Na busca destes objetivos deve ser dada especial atenção a estas fêmeas já desde sua chegada à granja, como apresentado a seguir.

Cuidados pré-cobertura

Introdução das marrãs na granja - A marrã de reposição pode ser produzida na própria granja ou oriunda de uma empresa produtora de genética. A idade de entrega da maioria das fêmeas de reposição é em torno de 145 a 165 dias, mas é muito variável. É necessário após a chegada dos animais, independente de sua origem, a adaptação ao novo ambiente, iniciando pelo período de quarentena.

Quarentenário - é o local onde todos os animais adquiridos para reposição devem permanecer durante um período (quarentena) com o objetivo de observá-los clinicamente e serem realizadas coletas de materiais para exames, tendo por finalidade a prevenção da entrada de doenças no rebanho. Isso ocorreria através de animais de reposição, aparentemente sadios, que podem ser portadores subclínicos de enfermidades bacterianas, víricas ou parasitárias, através da identificação de sinais clínicos apresentados pelos mesmos durante o período de quarentena. O período mínimo de permanência dos animais na quarentena é aquele necessário para a manifestação das doenças que se quer impedir a entrada e para a realização dos diagnósticos laboratoriais.

Adaptação - este período é importante para que os animais entrem em contato com a microbiota existente na granja de destino, proporcionando a formação gradual de imunidade. Visa um menor impacto das infecções presentes sobre os animais introduzidos e o não desencadeamento de patologias latentes na granja. Um período adequado, da chegada à cobertura, é de 50 a 60 dias.

1) Medicações - na chegada dos animais é recomendável à utilização de medicação preventiva através de aplicação parenteral ou via ração, segundo orientação do veterinário responsável. É necessário o acompanhamento clínico diário dos animais para a identificação precoce de doenças.
2) Imunizações - as vacinas a serem realizadas irão variar de acordo com as necessidades de cada granja, segundo orientação do veterinário responsável. Todas as marrãs devem ser vacinadas contra Parvovirose. A primeira dose de vacina deve ser realizada aos 170 - 175 dias de idade, e a segunda imunização 15 a 20 dias após a primeira (185 a 190 dias) e pelo menos 15 a 20 dias antes da cobertura. A imunização/vacinação para outras patologias deve ser sempre recomendada quando houver necessidade.

Manejo de Indução a puberdade - Este manejo objetiva antecipar o estro puberal. Vários aspectos influenciam a puberdade em marrãs, dentre eles podem ser citados: a idade, o peso, a taxa de crescimento, a nutrição, a genética, a temperatura, o fotoperíodo, aspectos sociais, tipo de alojamento, o manejo, a interação homem animal e a estimulação com o macho. Na prática, para aumentar o percentual de marrãs em estro em um curto período, devem ser associados o estresse do transporte, o novo alojamento com uma mistura de animais e as brigas conseqüentes para a formação da hierarquia social nas novas baias, a um manejo e estimulação com o macho.

1) Idade de início do manejo da indução da puberdade - a idade preconizada para o início desse manejo é de 150 a 160 dias. A justificativa para esta recomendação são os piores resultados obtidos quando o manejo é iniciado em fêmeas com idade inferior a 140 dias. A idade recomendada coincide com a idade media em que a maioria dos animais de reposição são alojados, levando a melhores resultados obtidos com a redução da idade à puberdade e sincronização do estro.
2) Efeito macho - um dos mais importantes estímulos que induzem à puberdade é a exposição de marrãs a machos sexualmente maduros, envolvendo os estímulos do contato físico, visual, auditivo e olfatório. O estímulo olfatório é desencadeado pelos ferormônios (3-androstenol e 5-androstenona) presentes principalmente na saliva, sendo um dos principais responsáveis pelo "efeito macho". A capacidade de produzir ferormônios se desenvolve com a idade. Machos com seis meses e meio de idade não são eficazes em induzirem a puberdade e sincronização do estro, quando comparados a machos com mais de dez meses. A rotação de machos, embora ainda discutível, é possível de ser empregada para uma renovação positiva no estímulo ao qual as marrãs estão sendo submetidas.
3) Periodicidade e duração do contato com o macho - o macho deve circular e entrar em contato focinho com focinho com todas as marrãs da baia. É recomendado o contato diário com o macho por um período de 10 15 minutos seja ampliado para duas vezes ao dia, (associando este manejo à freqüência recomendada ao diagnóstico de estro), favorecendo, com isso, a redução da idade à puberdade e a identificação de fêmeas com manifestação de estro curto. Outros fatores a serem considerados em relação aos machos são a libido e a saúde, principalmente do aparelho locomotor.
Organização de grupos de marrãs com estro sincronizado - Granjas que recebem grupos maiores de marrãs podem reagrupar as leitoas que manifestam estro em grupos sincronizados a fim de facilitar as atividades posteriores (vacinação, "flushing", detecção de estros, intervenções hormonais e cobertura). Para tanto, é recomendado o agrupamento das fêmeas à medida que estas apresentam estro, sendo que o agrupamento deverá ser realizado de acordo com a idade do primeiro estro, número de estros, idade e peso corporal. Esta organização proporciona o melhor acompanhamento dos animais, reduz as perdas por falhas de manejo e pode ser intensificado o manejo daquelas marrãs que não manifestaram estro devendo receber um manejo diferenciado ou mesmo serem descartadas.


Figura 1 - Taxa de prenhez (TxPre) e Taxa de sobrevivência
embrionária (Semb) aos 28 - 34 dias de gestação.

Manejo nutricional - o manejo alimentar ao qual as marrãs são submetidas, influencia, diretamente, no peso corporal e nas reservas corporais. Para aumentar o número de ovulações, todas as marrãs devem ser submetidas ao "flushing" pelo menos duas semanas antes da cobertura. Isto significa dar ração à vontade e/ou com mais energia nesse período, o que tende a aumentar o número médio de ovulações e, conseqüentemente, o número de embriões viáveis, como pode ser visto nas Figuras 1 e 2. O fornecimento de ração no período da chegada à cobertura deve ser à vontade. Cabe salientar, no entanto, que devem ser respeitadas as diferentes recomendações nutricionais encontradas entre as diversas genéticas.


Figura 2 - Número médio de Ovulações (NOv) e Número médio
de embriões viáveis (Nemb) aos 28 - 34 dias de gestação.

Perdas de marrãs pré-cobertura - compreende perdas reprodutivas como anestro e perdas por motivos sanitários desencadeados por doenças que podem levar a mortes e ou descartes.

1) Puberdade atrasada - é a falha de manifestação do primeiro estro, que pode ter como origem falhas na observação. Ocorre devido à falhas nos fatores liberadores de gonadotrofinas pelo hipotálamo e, conseqüentemente, de gonadotrofinas pela hipófise. Pode também ocorrer na presença de atividade ovariana (cio silencioso ou não detectado).
Existem diversos fatores que podem levar a falhas no mecanismo hormonal e conseqüentemente causar a não exibição do estro em marrãs. Os mais importantes podem ser observados na Tabela 1.
As granjas devem ter um controle da porcentagem de marrãs que não ciclam até 30 dias após a chegada à granja. Esse número normalmente varia de 5 a 15%. Quanto menor for esse índice tem-se um indicativo de que o manejo de indução à puberdade está sendo bem realizado, já se este índice estiver elevado demonstra que há falhas no processo.
Hormonioterapia na indução da puberdade - Em marrãs pré-púberes de 150 a 180 dias de idade, submetidas a aplicação de eCG / hCG, obtem-se de 90 a 100% de desenvolvimento folicular com ovulação em um intervalo médio de 4 dias. Com isso, na prática pode-se utilizar a aplicação de hormônios para a indução do estro nas marrãs com puberdade atrasada (que até 30 dias após o início do manejo de indução à puberdade não manifestaram estro). Como resultado dessa prática as marrãs terão seu primeiro estro de 4 a 5 dias após a aplicação do hormônio (eCG / hCG). Dessa forma a realização da IA / cobertura ocorrerá no segundo estro, estando a fêmea com idade semelhante àquelas que ciclaram normalmente, não prejudicando os alvos de cobertura.

Cuidados na cobertura

Para a primeira cobertura das marrãs devem ser observados vários aspectos para serem obtidos bons resultados não somente no primeiro parto, mas também em toda vida reprodutiva. A seguir serão listados os aspectos a serem observados para a obtenção de melhores resultados na primeira cobertura. Esses aspectos tem recomendações diferenciadas conforme a genética utilizada (Tabela 2) e nenhum dos pontos deve ser avaliado individualmente.
Idade e peso - a idade mínima recomendada de acordo com as diferentes genéticas deve respeitar um período mínimo de 50 a 60 dias pós-alojamento, de forma a haver suficiente adaptação dos animais a microbiota local. A idade mínima de cobertura desejada é em torno de 210 - 220 dias de idade, com peso superior a 125 - 130 Kg.
Espessura de toucinho - uma reserva corporal sob a forma de espessura de toucinho recomendada é em média de 15 a 18mm. É importante lembrar das recomendações das diferentes genéticas (ver Tabela 3).

Espessura de toucinho -
uma reserva corporal sob a forma de espessura de toucinho recomendada é em média de 15 a 18mm. É importante lembrar das recomendações das diferentes genéticas (ver Tabela 3).
Estro da cobertura - segundo Ferreira et al., 2001, os resultados obtidos com a cobertura no 3° e 4° estro, não diferiram entre si e foram superiores aqueles de fêmeas inseminadas no 2° estro, conforme as Tabelas 3 e 4. A utilização da IA/cobertura no 3° ou no 4° estro deverá ser definida a partir da idade da fêmea ao 3° estro. Aquelas fêmeas que atingirem a idade recomendada já no 3° estro são cobertas, senão devem aguardar o 4° estro.

Qualidade do diagnóstico de estro - embora de simples execução, o diagnóstico de estro adquire fundamental importância, pois a partir do início do estro será determinado o momento da realização da IA/cobertura. O diagnóstico de estro deve ser realizado duas vezes ao dia, com intervalos regulares de 8 a 16 horas, com auxílio de um macho com idade mínima de 10 a 12 meses, por uma equipe treinada com disponibilidade mínima de tempo para desenvolver esta tarefa.

Momento ideal da IA/MN
- A definição dependerá do momento da ovulação, que ocorre ao redor do início do terço final do estro. Segundo Wentz et al. (1997), a primeira IA/MN pode ser realizada 12 a 16 horas após o início do estro, para marrãs. Com relação à freqüência a IA deve ser reconduzida nos turnos seguintes em intervalos de 12 a 16 horas. Embora trabalhos recentes realizados pela Equipe do Setor de Suínos da UFRGS tenham demonstrado que IAs em porcas realizadas até 24 horas antes da ovulação não acarretaram em queda no número de embriões viáveis e na sobrevivência embrionária, justificando uma IA/MN por dia, observa-se, no entanto, que não é prudente recomendar este protocolo para marrãs, pois pode acarretar em considerável aumento na taxa de retorno ao estro.

Qualidade da dose inseminante
- As falhas na coleta e processamento do ejaculado e no armazenamento das doses inseminantes (DI) podem ser associadas às variações de qualidade entre as DIs. A contaminação química e microbiológica oriunda da má higienização de equipamentos e materiais que venham a entrar em contato com o sêmen pode ser responsável pela alteração da qualidade das células espermáticas e conseqüentes prejuízo aos resultados reprodutivos.

Cuidados na gestação

Acredita-se que as perdas gestacionais são da ordem de aproximadamente 35 a 45%. Os primeiros 30 dias de gestação são considerados a fase crítica para a sobrevivência dos conceptos. As causas dessas perdas são de ordem multifatorial:

Temperaturas elevadas - a temperatura ambiente e corporal nos primeiros 15 dias após IA/MN, se elevada, causa falhas na fecundação e na ligação embrio-maternal havendo reflexo direto sobre a eficiência reprodutiva. Nesse sentido o uso de prédios bem ventilados com pé direito alto e correta orientação solar e sistemas de ventilação e de resfriamento por aspersão são importantes para o melhor conforto da fêmea, bem como a adoção de cortinas e ou sombrites para proteger as fêmeas de queimaduras solares.

Alimentação - durante a gestação é fundamental que cada fêmea tenha acesso individual a sua alimentação, pois a quantidade de ração fornecida nessa fase é restrita. Na alimentação da fêmea suína deve ser reconhecido que as necessidades de nutrientes variam de acordo com a idade, peso, fase reprodutiva, estado metabólico, período do ano e genética. Embora não haja uma regra única é recomendado que as quantidades de ração fornecidas às fêmeas sejam monitoradas e ajustadas semanalmente, atentando para as necessidades individuais e para cada fase da gestação. Um alto consumo alimentar no início da gestação está associado a uma redução das concentrações plasmáticas de progesterona, ao qual se postula a causa no aumento da mortalidade embrionária. Embora outros autores não tenham encontrado efeitos negativos de altos níveis alimentares na fase inicial da gestação, a recomendação dada é de cinco dias de restrição alimentar pós cobertura.
Manejo com o macho - a estimulação com o macho durante a gestação é fundamental. Atenção especial deve ser dada no controle dos possíveis retornos ao estro, já a partir do 17° dia após a cobertura.

Outros cuidados - é recomendado que não sejam realizadas transferências das fêmeas até 35 dias após cobertura, sob pena de potencializar a morte embrionária. Estimular as fêmeas a levantar visa evitar a retenção de urina por muito tempo e estimular o consumo de água e atividade motora. As vacinações nesta fase visam aumentar títulos de anticorpos contra doenças específicas nos leitões, os quais irão receber esta proteção via colostro.

Conclusão

A maximização da produtividade das marrãs pode ser obtida através da prática correta de manejos. Estas práticas correspondem à correta estimulação com o macho, manejo nutricional e sanitário de qualidade, adequada realização da IA/MN e cuidados dessa fêmea durante sua primeira gestação. É muito importante a atenção dada a essa categoria nesse período, pois os resultados aqui obtidos terão reflexo em toda a vida reprodutiva dessa matriz.

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