descarte de matrizes
suínas. critérios na sua determinação visando
otimizar a produtividade
Gustavo Nogueira Diehl, Giancarlo Costi, Ivo Wentz
e Fernando Pandolfo Bortolozzo
Introdução
Granjas manejadas com intenso fluxo de produção trabalham
com taxas anuais de descarte, entre 35-50%. A remoção de
uma fêmea do plantel somente é involuntária quando
ela morre. Em qualquer outra situação, a remoção
envolve uma decisão voluntária: o descarte. Como cada fêmea
descartada é substituída por uma leitoa de reposição,
os maiores custos de produção estão relacionados
às fêmeas de reposição, pois representam a
categoria menos produtiva das matrizes do plantel (Brandt, Brevern &
Glodek, 1999). Diversos estudos mostram que as principais causas de descarte
estão relacionadas a falhas reprodutivas, seguidas por razões
como idade avançada, performance inadequada, problemas locomotores,
morte e problemas mamários (Jones, 1969; Muirhead & Alexander,
1997; D'Allaire & Drolet, 1999; López - Serrano et al., 2000).
O termo falha reprodutiva é usado para definir condições
variadas como a não observação de puberdade em leitoas,
não observação de estro pós-desmame, retornos
regulares e irregulares ao estro após cobertura, diagnóstico
de prenhez negativo, aborto e fêmeas vazias ao parto.
Erros na determinação real da causa de descarte são
bastante comuns, levando muitas vezes, ao descarte de fêmeas por
motivos pelos quais na realidade não estão acometidas. Esses
motivos de descarte podem ser oriundos basicamente de falhas humanas durante
a determinação da causa. O aumento no percentual de remoção
das fêmeas do plantel pode levar a um aumento da taxa de renovação
do plantel, com a entrada de um percentual maior de leitoas, e, com isso,
levar a diminuição da produtividade do rebanho com conseqüente
aumento dos dias não produtivos (DNP) e de custos. A eficiência
produtiva do rebanho da granja é adversamente afetada pela alta
taxa de substituição do plantel a qual leva a um alto percentual
de leitoas e fêmeas de ordem de parto baixas que comprometem a produtividade
por produzirem tamanhos de leitegada reduzidos e apresentarem menor taxa
de parto.
Taxas de reposição x eficiência
reprodutiva durante á vida útil da fêmea
As taxas de remoção, dependendo do seu percentual, podem
influenciar a distribuição das idade das fêmeas do
rebanho. Uma taxa de remoção excessivamente baixa está
associada com alta proporção de fêmeas velhas no plantel,
que tem maior probabilidade de apresentarem patologias (como infecções
urinárias) e podem estar relacionadas a menor eficiência
reprodutiva. Uma taxa de remoção alta geralmente está
associada com alta proporção de fêmeas jovens no plantel,
que são menos produtivas e responsáveis pelo aumento no
número de DNP (Dijkhuizen, et al, 1986). Fêmeas jovens também
tem maior probabilidade de apresentarem falhas reprodutivas e problemas
locomotores (D'Allaire e Drolet, 1999). Assim, uma alta taxa de remoção
requer muitos animais para reposição, aumentando os custos
com a aquisição desses animais e representando um risco
potencial de introdução de doenças.
As taxas de remoção encontradas nas granjas são bastante
variáveis, prevalecendo na suinocultura tecnificada, devido a organização
e cumprimento de critérios rígidos de descarte, as taxas
mais elevadas. Quando é praticada uma taxa de 39-40%, 35 a 36%
são representados por descarte e 4-5% por mortes (Muirhead, 1976).
D'Allaire e Drolet (1999) descreveram que as falhas reprodutivas foram
a causa mais comum de descarte de fêmeas em 15 dos 16 artigos revisados
pelos mesmos (Tabela 4). Diversos autores citados na mesma revisão
(Dagorn e Aumaitre,1979; D'Allaire et al. 1987; Dijkhuizen et al. 1989;
Stein et al. 1990, Lucia, 1997; Paterson etal. 1997) afirmam que fêmeas
jovens são mais sujeitas a serem descartadas por falhas reprodutivas
que fêmeas velhas.
Fêmeas descartadas por falhas reprodutivas acumularam o menor nº
de partos (2), desperdiçaram maior porcentagem da vida útil
(42%) em períodos não produtivos e estiveram entre as que
produziram menor nº de leitões desmamados durante a vida útil
e por ano de vida (Tabelas 2 e 3). Entre todas as fêmeas descartadas,
as que acumularam o maior número de partos (7,4), de leitões
desmamados por ano (21,3) e de leitões desmamados durante a vida
útil (68), foram aquelas descartadas devido a idade avançada
(Lucia, 2000).
Diversos parâmetros podem ser utilizados na estimativa de performance
durante a vida útil de fêmeas suínas, o mais eficiente
seria através da expressão da porcentagem de DNP ou da proporção
da vida útil que a fêmea desperdiçou em períodos
não produtivos. Essa proporção seria em torno de
20% da vida útil para porcas removidas com somente um parto e diminui
a medida que o nº de partos aumenta (Lucia et al., 1999).
Detecção de estro ineficiente, cobertura/IA em idades muito
precoces, falhas na estimulação com o macho, uso de machos
jovens, falhas nutricionais, agentes infecciosos ou tóxicos práticas
de manejo mau realizadas e problemas ambientais podem ser responsáveis
por altos níveis de descartes por falhas reprodutivas em fêmeas
jovens (D'Allaire and Drolet, 1999).
Política de descartes x custos de produção
Existe um componente de custo fixo relacionado à reposição
de uma fêmea do plantel de reprodução, independente
se ela foi criada na própria granja ou adquirida de um fornecedor
externo. Portanto, a fêmea de reposição concorre para
a geração de despesas antes mesmo de ser introduzida no
plantel de reprodução. Esse custo relacionado a reposição,
devem ser somados outros componentes de custo (alimentação,
instalações, mão de obra) que aumentam diariamente
em função da permanência da fêmea no plantel
(Djikuizen et al, 1989; Huirne et al, 1991).
Em geral, para granjas comerciais ao se adquirir uma nova matriz de empresas
multiplicadoras genéticas, o preço pago é maior aquele
obtido com a venda da matriz descartada, pois, neste valor está
embutido o valor genético da nova matriz. Essa diferença
varia de granja para granja, mas de qualquer forma se a matriz adquirida
não produzir leitões que possam gerar um retorno financeiro,
o valor pago no momento do descarte dessa matriz teria que compensar os
custos da aquisição da matriz, juntamente com os gastos
com frete, alimentação no período em que esteve alojada,
vacinas e mão-de-obra, para não afetar negativamente os
rendimentos da granja.
É importante considerar, no programa de descartes, o número
médio de parições, já que o capital investido
inicialmente para a formação de uma matriz faz a primeira
leitegada ter um custo superior à segunda e esta, à terceira.
O ideal, sob este aspecto seria a manutenção de fêmeas
produtivas no plantel, evitando seu descarte precoce. Este princípio,
contudo, não pode ser observado em granjas multiplicadoras genéticas
onde o objetivo de produção é o ganho genético
e quanto menor o intervalo entre gerações, menor o tempo
gasto para seleção de caracteres desejados (Carvalho, 2000).
O custo diário de manutenção tende a ser maior em
porcas de menor parição em função do maior
acúmulo de DNP, uma vez que se esse dia for não produtivo,
o custo por matriz ficaria em torno de US$ 1,43 (Polson et al, 1990).
Usando um modelo de reposição de matrizes, Dijkhuizen et
al (1989), avaliou a perda por remoção prematura em aproximadamente
US$ 62 por fêmea descartada, com uma taxa de reposição
anual de 50% que representa o equivalente a 16% dos rendimentos da granja
de suínos. Usando o mesmo modelo o autor realizou uma simulação
aumentando o nº médio de parições no momento
do descarte de 2,8 partos para 3,8 partos e de 3,8 para 4,8. Com o aumento
do número de partos ao descarte, a renda por porca ano melhorou
para US$ 25-35 e US$ 20-25, respectivamente. Entretanto, em trabalho semelhante
com o aumento para 5 partos ao descarte, não foi encontrado nenhum
efeito benéfico segundo Sehested (1996).
Monitoramento do trato reprodutivo ao abate
O monitoramento do trato reprodutivo ao abate pode ser usado para avaliar
a performance reprodutiva das fêmeas e auxiliar no diagnóstico
da causa de falhas reprodutivas. Por exemplo, o útero pode ser
inspecionado para presença de fetos ( avaliar se o diagnóstico
de retorno e conseqüentemente o diagnóstico de prenhez estão
sendo bem feitos), ou de pus no seu lúmen (alguma doença
infecciosa interferindo na performance reprodutiva). Os resultados devem
ser interpretados em conjunto com o histórico da fêmea e
deve-se dar atenção especial para a razão do descarte,
sendo necessário correlacionar o estágio do ciclo estral
encontrado no abate com o histórico da granja (MacLachan e Foley,
1986). A partir dessa avaliação é possível
organizar o programa de descarte, evitando-se descartes desnecessários,
e com isso, aproveitar melhor a longevidade das fêmeas, seus melhores
potenciais produtivos, aumentando a eficiência produtiva do plantel
como um todo e diminuindo custos.
Consistentemente tem sido encontrados resultados conflitantes entre a
história clínica e os achados ao abate, principalmente aqueles
relacionados ao aparelho reprodutor. Diehl et al (2003), ao avaliarem
os ovários de leitoas que haviam sido descartadas por não
terem apresentado nenhum estro na granja, observaram que, na granja 1,
84 % e na granja 2, 78% apresentaram corpos albicans ou corpos lúteos,
indicando que estas leitoas haviam ciclado pelo menos uma vez. Esta situação
indica que, possivelmente, houve falha na identificação
do estro nessas leitoas, quando do manejo da indução da
puberdade, ou na identificação do primeiro estro. Na tabela
1 são apresentados os resultados e correlações entre
o histórico das fêmeas e os possíveis achados do trato
reprodutivo ao abate.
Resultados semelhantes foram descritos em trabalho comparando achados
em 338 tratos reprodutivos com as razões descritas pelos produtores
para descarte das fêmeas. Neste trabalho a razão para remoção
não foi substancial em 36% dos casos (Josse, 1980).
Da mesma forma, outras observações errôneas podem
ser realizadas levando animais ao descarte por motivos que não
correspondem aos achados descritos ou identificados na granja.
Qual o momento ideal para remoção de matrizes? (critérios
pra descarte)
A determinação da taxa anual de reposição
é o 1º passo para avaliar o programa de remoção.
Circunstâncias incomuns, como uma mudança no inventário
ou nos critérios de descartes, podem alterar temporariamente a
taxa de reposição. O cálculo do nº médio
de parições no plantel é muito usado, mas o nº
médio de parições das fêmeas descartadas é
mais informativo(D'Allaire e Drolet, 1999).
É importante saber o intervalo entre o evento de produção
que determinou o descarte e a remoção da granja, porque
influencia no nº de leitões/fêmea/ano e no nº desmamados/fêmea/ano
(D'Allaire e Drolet, 1999).
Diversos autores relatam que há um aumento no tamanho da leitegada
do primeiro para o quarto ou quinto parto, decrescendo a partir deste,
então, para maximizar o tamanho da leitegada e leitegadas/fêmea/ano
é importante o estabelecimento de critérios para remoção
de matrizes que levem estes dados em consideração buscando
aumentar a longevidade das matrizes do plantel de reposição.
Dados obtidos na América do Norte (Lucia et al, 1997) indicam que
o número máximo de partos que uma fêmea poderia ser
mantida no plantel seria de no máximo 6 partos, enquanto dados
obtidos na Europa (Huirne et al, 1991) indicam que a manutenção
de uma fêmea por até 9 partos ainda seria economicamente
viável.
Lanzer e Protas (1985), recomendam uma estratégia de descarte de
matrizes baseada na ordem de parto e no tamanho da leitegada e, segundo
os autores seguindo esta estratégia é possível obter
uma elevação em 11% no rendimento reprodutivo em relação
a uma estratégia baseada somente no número de partos.
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Referências consultadas
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