Aspectos Relevantes na Avaliação da Morfologia Espermática do Suíno
Cristiane da S. D. Furtado, Ana Paula G. Mellagi, Anamaria J. Vargas, Fernando P. Bortolozzo, Ivo Wentz, Mari L. Bernardi
UFRGS – FAVET - SETOR DE SUÍNOS, Av. Bento Gonçalves, 9090, CEP 91540-000, Porto Alegre – RS

O exame de morfologia espermática faz parte da avaliação qualitativa do ejaculado e permite a determinação da freqüência de cada uma das anormalidades espermáticas e do percentual total de alterações na amostra de sêmen. É utilizado como indicativo do potencial fecundante do ejaculado, pois as alterações interferem na capacidade de movimentação e fecundação do espermatozóide, de acordo com a localização do defeito. Este exame é uma ferramenta fundamental para o descarte do ejaculado e até mesmo do reprodutor (Bortolozzo et al., 2005).
A morfologia espermática deve ser avaliada periodicamente ou quando o sêmen apresentar suspeita de alterações morfológicas. No exame são avaliadas e registradas as alterações presentes em cada estrutura, separadamente. Os defeitos podem ocorrer em um dos segmentos da célula espermática ou em mais de uma estrutura, simultaneamente. Quando a célula apresenta mais de um defeito em regiões distintas, apenas o defeito mais severo é considerado. Ao final, é feita a soma das alterações observadas e o total obtido não deve ultrapassar o limite aceitável. Um alto percentual de defeitos pode representar alterações durante a espermatogênese ou no trânsito e maturação no epidídimo, ou mesmo, manipulação inadequada do ejaculado.

O exame de morfologia espermática deve ser efetuado nos seguintes casos:

  • Machos que serão introduzidos no plantel da Central de IA (coletar uma amostra da 4a-6a coleta, evitar conclusões em exames realizados nas primeiras coletas da vida do doador);
  • Em todos os reprodutores do plantel, sistematicamente, a cada 50-60 dias;
  • Quando for observada queda continuada da motilidade (2 ou mais ejaculados em seqüência);
  • Quando no exame de motilidade houver suspeita de um aumento excessivo do número de espermatozóides com anormalidades;
  • Quando o macho for afastado temporariamente do regime de coleta;
  • Em machos que apresentaram quadro de hipertermia

Material necessário:

A amostra de sêmen a ser avaliada deve ser enviada ao laboratório em um frasco de vidro com tampa de borracha, em solução formol-citrato (Quadro 1). A remessa do material ao laboratório deve ser imediata, pois, apesar da fixação das células, o tempo é deletério para a qualidade da amostra devido à aglutinação espermática. Deve-se ter cuidado ao manipular a solução de formol, evitando que entre em contato com o material de processamento de sêmen na Central de Inseminação Artificial, pois é uma substância espermicida.

Quadro 1. Composição da solução formol-citrato.

Citrato de Sódio 2H2O - 2,9gl
Formaldeído 35% - 4,0ml
Água destilada q.s.p. - 100ml


Preparação da amostra:

-Preparar frascos com 3 a 4ml de solução formol-citrato previamente aquecida entre 32 e 35°C;
-Acrescentar 2 a 3 (200-300microlitros) gotas de sêmen, de acordo com a concentração do ejaculado, até obter amostra de aspecto turvo. O excesso de sêmen na amostra pode prejudicar a avaliação por causar aglutinação espermática.
-Homogeneizar.


Limites aceitáveis de alterações morfológicas dos espermatozóides:

É considerado sêmen normal aquele com número de células espermáticas morfologicamente anormais dentro dos limites aceitáveis. No manual para exame andrológico e avaliação de sêmen animal (CBRA, 1998) as alterações morfológicas totais devem ser inferiores a 20%. Quando individualizadas por região do espermatozóide, devem ser considerados os limites apresentados no Quadro 2. É importante salientar que, mesmo quando os parâmetros morfológicos encontram-se dentro dos limites aceitáveis, o resultado do exame não permite estabelecer o nível de real fertilidade do ejaculado (Rodríguez-Martínez & Eriksson, 2000).


Alterações morfológicas dos espermatozóides:

As alterações na morfologia espermática podem ser classificadas de acordo com sua origem (Quadro3) ou de acordo com a localização da alteração.


Gota citoplasmática:

Durante a espermatogênese, fisiologicamente, ocorre a formação de uma gota junto ao colo. Esta estrutura é um resíduo do processo de formação do espermatozóide, sendo conhecido como gota citoplasmática proximal. Ao longo do trânsito espermático pelo epidídimo, a gota migra para o final da peça intermediária, passando a se chamar gota citoplasmática distal, até se desprender da peça intermediária e ser perdida (Figura 1). As gotas podem ser encontradas em todos os ejaculados e estão presentes em maior número na fração inicial do ejaculado. A ocorrência de gota citoplasmática é, geralmente, indicativo de problemas durante a maturação e trânsito no epidídimo. No entanto, não são consideradas de grande importância em suínos, pois nessa espécie não estão correlacionadas com a fertilidade. Entretanto, cabe salientar que a ocorrência de gota citoplasmática proximal superior a 5%, especialmente em sêmen diluído e resfriado, pode reduzir o potencial fecundante da amostra (Leidlet al., 1999).
A ocorrência elevada desta anormalidade pode indicar degeneração ou hipoplasia testiculares ou disfunção epididimária. Apresença da gota citoplasmática proximal é considerada normal e transitória em machos jovens (idade inferior a 12 meses) e tende a desaparecer quando o reprodutor atinge a estabilidade na produção espermática, por volta de 12 meses de idade. O mesmo ocorre nos processos degenerativos quando em fase de involução, ao contrário dos casos de hipoplasia testicular nos quais a gota persiste. A coleta excessiva dos machos pode levar a um aumento no percentual de gotas e a redução do número de coletas minimiza sua ocorrência. Além disso, estresse térmico, quadros febris e alterações nutricionais podem resultar no aumento de espermatozóides com esta alteração.

Quadro 2. Limites aceitáveis de defeitos
espermáticos em amostras de sêmen suíno.

Alterações de acrossoma - 5%
Alterações de cabeça - 5%
Alterações de colo - 5%
Gota protoplasmática proximal (GPP) - 10%
Alterações da peça intermediária - 5%
Gota protoplasmática distal (GPD) *
Alterações de cauda - 10%
Total de alterações - 20%

* Sem significado patológico em suínos, não sendo
computada no total de células alteradas.
Adaptado de CBRA (1998)

Cabeça:

As formas anormais da cabeça podem ser diversas, por exemplo, alongadas, arredondadas, ter estreitamento próximo ao colo, ser maiores ou menores que o normal (Figura 2). A alta freqüência de anormalidades de cabeça está geralmente relacionada com casos de degeneração e hipoplasia testiculares.

Quadro 3. Classificação das alterações espermáticas
As alterações observadas podem ter diversas etiologias, de acordo com a estrutura e forma de apresentação. As anormalidades na morfologia espermática podem ser classificadas em:

Anormalidades primárias: de origem intra-gonadal, causadas por falhas na espermatogênese. São alterações que os espermatozóides sofrem durante a espermatogênese e são indicativos de processos patológicos.

Anormalidades secundárias: alterações de origem extra-gonadal, geradas durante a maturação e transporte no epidídimo. São originadas no epidídimo, após as células terem completado a transição de espermatócito secundário para célula espermática, portanto, ocorrem após a formação dos espermatozóides.

Anormalidades terciárias: alterações ocorridas depois da ejaculação, geradas mais freqüentemente durante a manipulação do sêmen. Este tipo de defeito é originado durante a manipulação e processamento do ejaculado devido ao manuseio inadequado. A influência na capacidade fecundante do ejaculado depende do tipo e da localização do defeito e da
freqüência das alterações, podendo resultar na redução do potencial de fertilidade da amostra. O choque térmico durante a coleta e diluição é uma das causas mais comuns de formação de cauda dobrada ou enrolada. Este problema é resolvido mantendo-se todo material aquecido durante o
processamento e diluição do ejaculado.


Cabeça Destacada:

O colo da célula espermática é uma das estruturas mais frágeis. Uma alta freqüência de cabeça destacada pode ser um indicativo de uma disfunção do epidídimo ou hipoplasia testicular. No entanto, cabe salientar que, em casos de avaliação de sêmen por coloração em lâmina, a cabeça destacada pode ser artefato decorrente de problema na preparação do esfregaço. O mesmo pode acontecer no preparado úmido, quando a lamínula é pressionada com força sobre a lâmina contendo a gota de sêmen.

Peça Intermediária:

Alterações isoladas na peça intermediária são raras, mas são geralmente observadas associadas a outras anormalidades, por exemplo, alterações de cabeça.

Cauda dobrada e cauda enrolada (defeito de peça intermediária e cauda):

Alterações na forma da peça intermediária e cauda podem ter diversas causas. Estas patologias são mais freqüentemente originadas no epidídimo, cuja natureza não foi totalmente elucidada, ou durante a ejaculação devido à secreção alterada das glândulas acessórias. A ocorrência de doenças, quadros febris e deficiência nutricional também pode gerar anormalidades de cauda. Estas anormalidades podem ser classificadas como terciárias quando são resultado de choque térmico durante a coleta ou diluição (Figura 1).

Alterações de Acrossoma:

O acrossoma é uma estrutura fundamental no processo de fecundação, pois esta estrutura possui enzimas que participam do processo de fecundação. Portanto, alterações nessa estrutura são consideradas graves, pois resultam em perda da capacidade fecundante da célula (Figura 3). Os defeitos acrossomais podem ser tanto primários quanto terciários. As anormalidades decorrentes de falha na espermatogênese podem ter como causa doença, reação vacinal, constipação ou carências vitamínicas. Outra causa é o intervalo prolongado entre coletas. Não raramente, estas anormalidades são terciárias, devido a fatores prejudiciais como envelhecimento, congelamento ou descongelamento, flutuações de temperatura, pH ou osmolaridade durante o processamento. Também pode ocorrer dano ao acrossoma quando a solução fixadora utilizada, mais freqüentemente solução formol-citrato, foi preparada de forma inadequada ou está estocada há muito tempo.

Considerações Finais:

A fertilidade de um plantel depende diretamente da qualidade do sêmen, principalmente quando é adotado o sistema de inseminação artificial. Portanto, a correta tomada de decisões sobre aquisição e manutenção de reprodutores no plantel inclui, obrigatoriamente, adoção de um protocolo de avaliação qualitativa e quantitativa do sêmen. Desta forma, recomenda-se que o exame de morfologia espermática seja realizado a cada ciclo espermatogênico (60 dias aproximadamente) como forma de monitoramento da qualidade seminal dos reprodutores.









Referências bibliográficas:

BORTOLOZZO, F.P.; WENTZ, I.;FERREIRA, F.M.; BENNEMAMM, P.E.; BERNARDI, M.L. Exame do ejaculado. In: Bortolozzo, F.P; Wentz, I.; Bennemamm, P.E.; Bernardi, M.L.; Wollmann, E. B.; Ferreira, F.M.; Borchardt Neto, G. Suinocultura em ação. Inseminação artificial na suinocultura tecnificada. Porto Alegre, 2005, cap. 7. p. 69-87.
CBRA. Manual para exame andrológico e avaliação do sêmen animal/ Colégio Brasileiro de Reprodução Animal. 2. ed. Belo Horizonte: CBRA, 1998, 49p.
LEIDL, W.; STOLLA, R.; SCHEFELS, W.;SCHAD, C. Morphology of sperm. Description, classification and assessment. Part 2. Boar (Sus scrofa f. domestica). Software distributed by Minitub of America, Inc.,Version 7. July 1999.
RODRÍGUEZ-MARTÍNEZ, H., ERIKSSON, B. Evaluación del semen de verraco y su relación con fertlidad. In: Simpósio Internacional Minitub, 3., 2000. Flores da cunha-RS, p. 13-33.

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