Mortalidade em leitões em aleitamento associada à injeção com penicilina*
Patrícia Schwarz, Marisa Ribeiro de Itapema Cardos, Juliana Calveyra, Alessandra Blacene Sella, David Driemeier, David E. Barcellos
UFRGS – Setor de Medicina Veterin'aria Preventiva, Av. Bento Gonçalves, 9090, CEP 91540-000, Porto Alegre – RS

Doenças com etiologia não infecciosa em leitões, como intoxicações, podem ocasionar surtos esporádicos de mortalidade na fase de aleitamento. O uso de antibióticos é comum na maternidade, como profilático em leitões recém nascidos ou em outras faixas etárias para o tratamento de diversas infecções bacterianas. As penicilinas em suas diferentes formulações (como a penicilin-procaína e amoxicilina) são bastante usadas, por seu espectro compatível com algumas das principais infecções prevalentes em leitões na maternidade. Casos de intoxicações cursando com mortalidade de leitões ou de reações suspeitas de anafilaxia após a administração dessa droga foram descritas anteriormente (1,4,6,9,10,12,13). Existe uma outra forma de reação adversa bem reconhecida, a de abortos em fêmeas no final da fase de gestação (8,11). O presente relato descreve um surto de mortalidade de leitões na fase de aleitamento, após administração de produto antibiótico à base de penicilina e estreptomicina.

Apresentação do caso clínico e discussão

O problema ocorreu numa granja de produção de leitões, alojando aproximadamente 1200 matrizes, situada na região da Serra, Rio Grande do Sul. O relato inicial foi de mortalidade de leitões com 10 a 16 dias de idade, ocorrendo 1 a 3 horas após a administração de um produto antimicrobiano contendo penicilina e estreptomicina. Os sinais clínicos prévios à mortalidade reportados pelo gerente eram de “sintomatologia nervosa”. Na fase anterior à visita à granja, haviam adoecido aproximadamente 30 leitões entre 50 medicados (60%), com mortalidade de 23 entre os doentes (76,6%) poucas horas após a apresentação dos sintomas iniciais. Foi realizada uma visita para análise dos sintomas e para coleta de materiais com finalidade de realização de exames laboratoriais. Numa visita posterior, foi realizado o uso controlado do medicamento suspeito numa série de 16 matrizes e suas leitegadas, para observação da ocorrência dos sintomas suspeitos.


Foto 2: Salivação excessiva de leitão com duas semanas de vida, após administração de penicilina.

No dia da primeira visita havia apenas uma leitegada com leitões apresentando o problema denunciado. Dentro da leitegada, havia um leitão com sintomas, era o único que havia sido medicado num lote de 11. A causa dessa e das outras medicações que resultaram na mortalidade eram ocorrências sanitárias rotineiras, como diarréia, artrites, apatia e atraso de desenvolvimento. O exame clínico do leitão afetado mostrou salivação excessiva, taquipnéia, taquicardia e respiração ofegante (Fotos 1 e 2). O quadro havia aparecido aproximadamente 2 horas após a aplicação de produto à base de penicilina-estreptomicina. A dose utilizada em todos os casos foi de 0,5 mL de produto antimicrobiano contendo penicilina e estreptomicina. O exame clínico não confirmou a suspeita do encarregado pelo plantel, que havia diagnosticado sintomatologia nervosa Foi realizada a necropsia do leitão afetado. As principais alterações observadas foram fígado de coloração alterada e rim com aspecto pálido. Não foram encontradas anormalidades macroscópicas no exame do cérebro. Foram coletados materiais dessas e de outras vísceras para a realização de exames bacteriológicos e histopatológicos. Não houve crescimento de microorganismos patogênicos a partir dos cultivos das vísceras. O exame histopatológico demonstrou lesões degenerativas do sistema nervoso central, indicando possível anoxia. Áreas de malaia no córtex cerebral e desorganização com presença de neurônios retraídos, com citoplasma eosinofílico, foram ainda identificados.
Numa segunda visita, o produto suspeito foi injetado em leitegadas de 16 matrizes (157 leitões). 1 a 3 horas após a aplicação, 53 leitões (34%) mostraram sinais de inquietação, salivação e respiração ofegante com dispnéia. Na maioria dos afetados houve remissão progressiva dos sintomas para a cura, mas em 20 leitões (13%) houve evolução para a morte, aparentemente por insuficiência respiratória. Na necropsia, as lesões foram similares às observadas na primeira visita.
Os maiores efeitos adversos registrados com o uso de penicilinas têm sido anafilaxia aguda e colapso, mas reações de hipersensibilidade mais leves (cursando apenas com febre, urticária e edema angio-neurítico) foram relatadas anteriormente (2, 3,7,9,13). A penicilina em contato com o sistema nervoso central pode causar estimulação, tremores musculares e convulsões. Esses efeitos foram obtidos pela injeção experimental direta no córtex cerebral de animais (6).


Foto 1: Dispnéia após apresentação de sinais de
salivação, diarréia e vômito de leitão com duas
semanas de vida, após administração de penicilina.

A intoxicação de suínos a campo foi relatada anteriormente por diferentes autores (2,5,7,9). Os sinais clínicos, evolução e lesões encontradas nos animais afetados foram similares às verificadas no nosso relato. Um dos autores (2) sugeriu que os sinais clínicos tinham sido desencadeados por uma reação de anafilaxia. No nosso caso, a tentativa de tratar alguns leitões doentes com anti-histamínicos apresentou resultado apenas regular, ocorrendo ainda mortes após a aplicação desse tipo de produto. Outro autor (3) sugeriu que a reação fosse devida a um quadro tóxico, causado por um produto alterado devido a um tempo de conservação longo em temperatura inadequada. Essa hipótese não pode ser afastada no presente caso, pois os relatos sobre as condições de conservação do antibiótico antes do uso foram contraditórios. Uma forma típica de hipersensibilidade aguda em cães com tremores, salivação, vômito e congestão cutânea foi registrada por Clarke (5) dentro de 15 minutos após a injeção intramuscular de penicilina procaína. Nesse caso, o autor suspeitou de que o leite da mãe pudesse ter sido a origem da sensibilização à penicilina. No nosso caso, a sintomatologia foi similar à descrita por esse autor. Como existem produtos que têm em sua composição penicilinas e que são administrados rotineiramente a porcas prenhas (como vacinas que têm em seu diluente penicilinas), existe teoricamente a possibilidade de que situação similar pudesse ter desencadeado o atual problema. Nessa granja, eventuais problemas clínicos em porcas gestantes eram tratados rotineiramente com antibióticos, entre os quais penicilinas, o que poderia gerar a sensibilização via colostro de leitegadas nascidas das fêmeas medicadas.

Referências Bibliográficas

AVELLINI, G. Generalità sull'impiego della Penicillina e Estreptomicina. Veterinaria (Farmitalia), v.4, n.3, p. 3-13, 1955. 2. DESROSIERS, R.; SAUVAGEAU, R.; BEAUREGARD, M. Carbadox and procaine peniciliin toxicity in pigs. 10th International Pig Veterinary Society Congress, Rio de Janeiro, Proceedings, p.249, 1988. 3. EMBRECHTS, E. Procaine penicillin toxicity in pigs. Veterinary Record, v.111, p.314-315, 1982. 4. HENRY, S.C.; UPSON, D.W. Therapeutics In: Leman, A.; Straw, E.B.; Mengeling, W.L.; D'Allaire, S.; Taylor, D.J. Diseases of swine, 7th Ed. Ames, Iowa State University Press, 1992 p.837-846. 5. CLARKE, P.B. Penicillin intoxication. Veterinary Record, v.72, p.1054, 1960. 6. JONES, M.; TORAL, M.T.; CHAVARRIA, M. Farmacologia y Terapeutica Veterinarias. Uteha Ed., Mexico, 1a Ed., p.406-425, 1959. 7. LAMBERT, H.P.; O´GRADY, F.W. Penicillins. In: Antibiotic and chemotherapy. Churchill Livingstone Ed., 6th Ed., Edinburgh, p.191-230, 1992. 8. LYNCH, P.J. Abortion in sows after injection of a suspension of penicillin and streptomycin. Australian Veterinary Journal, v.61, n.1, p.29, 1984. 9. MARSHALL, A.B. Penicillin: suspected adverse reaction. Veterinary Record, v.106, p.207-208, 1980. 10. McKINNON, J.D. Drugs use and abuse: Iatrogenics or farmacogenics. Pig Veterinary Journal. v.29, p.149-160, 1992. 11. NURMIO, P. Penicillin G procaine: a possible cause of of embryonic death in swine. Veterinary Record, v.106, p.97-98, 1980. 12. POWERS, T.E.; GARG, R.C. Pharmacotherapeutics of newer penicillins and cephalosporins. Journal of the American Veterinary Medical Association, vol.176, p.1054-1059, 1980. 13. PRESCOTT, J.F.; BAGGOT, J.D.; WALKER, R.D. Beta-lactam antibiotics. In: Antimicrobial Therapy in Veterinary Medicine. 3rd Ed., Iowa State University Press, Ames, p.105-133, 2000. 14. SOBESTIANSKY, J.; BARCELLOS, D.E.S.N.; MORES, N.; OLIVEIRA, S.J de; CARVALHO, L.F. Patologia e Clínica Suína. Lajeado, RS, Cometa Ed., 1ª Ed., 350 p., 1993.

* Adaptado de: SCHWARZ, P.; CARDOSO, M.R.I, CALVEYRA, J.; SELLA, A.B.; DRIEMEIER, D.; BARCELLOS, D.E.S.N. Mortalidade em leitões em aleitamento associada à injeção com penicilina em uma agroindústria no sul do Brasil. Acta Scientiae Veterinariae, v.33, p. 321-324, 2005

 

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