Otite média supurativa em suínos

William Asanome(foto), Felipe L. Koller, Fabiano B. Carregaro, Evandro Nottar, David Driemeier, Sandra M. Borowski, David Barcellos

UFRGS - FAVET - SETOR DE SUÍNOS, Av. Bento Gonçalves, 9090, CEP 91540-000, Porto Alegre -RS

INTRODUÇÃO

As doenças do ouvido do suíno têm recebido pouca atenção veterinária por envolverem órgãos de difícil acesso ao exame e por, aparentemente, não estarem associadas a perdas econômicas significativas. No entanto, registros objetivos e precisos do seu real impacto na suinocultura moderna são praticamente inexistentes. No contexto da busca incessante por índices de produtividade competitivos, qualquer evento na vida do leitão que seja capaz de refletir negativamente na qualidade e no rendimento do produto final não podem ser negligenciados. Possivelmente, a otite média seja uma patologia que se enquadre na questão. No suíno, há indícios de que essa infecção seja resultado da invasão de bactérias a partir do trato respiratório superior através da tuba auditiva. Em concordância, os organismos que têm sido isolados dessas lesões incluem bactérias comumente encontradas na nasofaringe de animais saudáveis ou com doença respiratória, como Arcanobacterium pyogenes, Pasteurella multocida, Streptococcus spp., Staphylococcus spp., bactérias corineformes do grupo E e Actinobacillus pleuropneumoniae (Duff et al., 1996; Hipólito et al., 1958; Olson et al., 1981; Shimada et al., 1992). De acordo com Duff et al. (1996) e Hipólito et al. (1958), suínos acometidos por otite média não apresentam alteração de temperatura corporal e de apetite, mas quando há extensão da infecção para as estruturas do ouvido interno, observa-se a ocorrência da síndrome vestibular, caracterizada por inclinação da cabeça para o lado correspondente à lesão, andar em círculos e perda de equilíbrio. O objetivo deste trabalho foi estudar a prevalência e os agentes bacterianos envolvidos com a otite média supurativa em leitões apresentando sinais clínicos da Síndrome de Refugagem Multissistêmica (SRM).

ESTUDOS NO RIO GRANDE DO SUL

Foram analisados os ouvidos médios de 81 suínos, provenientes de granjas de empresas de integração situadas no estado do Rio Grande do Sul. Todos os animais necropsiados tinham idades variando entre 60 e 100 dias e apresentavam sinais clínicos da SRM. O acesso ao ouvido médio foi obtido através de cortes no crânio, de forma a expor o interior da bula e da cavidade timpânica. Nessas estruturas, buscava-se verificar a existência de exsudato purulento, que, quando presente, era cultivado em ágar-sangue de carneiro 5% e em ágar MacConkey, a 37°C, em atmosfera aeróbica. O crescimento foi avaliado por até 72 horas e a identificação dos organismos isolados foi realizada segundo Cowan et al. (1974).

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Dos 81 animais analisados, 15 (18,5%) apresentaram otite média supurativa (Figura 1), perfazendo um total de 23 ouvidos afetados. Em estudo realizado no Japão, Shimada et al.(1992) relataram a doença como prevalente em 40% dos 237 animais examinados, que tinham idades entre 60 e 120 dias e foram abatidos devido a um prognóstico desfavorável por apresentarem fraqueza, problemas locomotores e hérnias. A diferença entre esses dados se deve, possivelmente, a uma maior variedade de patologias observadas nos animais abatidos em nosso estudo (pneumonias, atrites, diarréias, etc.), decorrentes da imunodepressão causada pelo quadro de SRM. Assim, os problemas de otite estariam diluídos entre todos os outros observados. Oito dos 16 animais com a infecção (50%) tiveram seus ouvidos atingidos bilateralmente. O agente isolado com maior freqüência foi o Arcanobacterium pyogenes (Tabela 1), que esteve presente em 14 (63,6%) dos 22 ouvidos submetidos a exames bacteriológicos, em cultura pura ou associado a Pasteurella multocida, Streptococcus alfa-hemolítico ou Staphylococcus aureus. Estes resultados confirmam a importância do A. pyogenes como agente em lesões supurativas nos suínos (Taylor, 1999) e são semelhantes aos obtidos em outros trabalhos, que descreveram o isolamento de organismos similares, em especial, a P. multocida e o A. pyogenes como agentes únicos ou presentes em infecções mistas (Duff et al., 1996; Hipólito et al., 1958; Olson et al., 1981; Shimada et al., 1992). É possível que a imunossupressão causada pela SRM tenha tido algum papel no estabelecimento da infecção do ouvido médio dos animais examinados. Os cortes adotados para a obtenção de acesso ao ouvido médio não possibilitaram uma avaliação precisa da integridade de todas as suas estruturas. Entretanto, a simples existência de exsudato purulento na bula ou na cavidade timpânica é um indicativo de uma lesão de grau e extensão considerável. Olson et al. (1981) e Shimada et al. (1992) relataram que a presença de inflamação supurativa do ouvido médio esteve freqüentemente associada à lise das estruturas ósseas que o compõe (ossículos, septos da bula e paredes da cavidade) e da membrana timpânica. De fato, em dois dos animais aqui examinados, foi possível observar macroscopicamente a lise dos septos e da parede da bula timpânica. A inexistência de sinais clínicos de síndrome vestibular e de meningite/encefalite nos animais avaliados com exceção de um, que apresentava cabeça pendente, andar em círculos e desequilíbrio (Figura 2) - indica que as lesões não se estenderam para o ouvido interno e para o sistema nervoso. Apesar de alguns autores mencionarem que os sinais clínicos tornam-se evidentes e economicamente relevantes apenas em situações nas quais há comprometimento daquelas estruturas (Duff et al., 1996; Hipólito et al., 1958), acreditamos que a dor e a surdez provocadas pelo processo inflamatório, ainda que restrito ao ouvido médio, também possam afetar sensivelmente o desenvolvimento dos animais. Por serem inespecíficos e/ou difíceis de interpretar na espécie suína, tais sinais podem passar despercebidos ou ser equivocadamente traduzidos pelo clínico veterinário, que normalmente não os relaciona à ocorrência de infecção no ouvido médio. A maior parte da escassa literatura sobre otites em suínos concentra-se na investigação da sua patogenia, que ainda permanece apenas parcialmente compreendida. Não há estudos que analisem seu real impacto sobre os índices de produtividade na suinocultura, tais como ganho de peso diário e conversão alimentar. Fazem-se necessárias, portanto, investigações com essa abordagem. A mensuração da influência negativa da doença sobre esses índices seria de grande valor para um melhor entendimento da complexa interação de fatores que levam ao baixo desenvolvimento e à refugagem de leitões.

CONCLUSÕES

Uma percentagem significativa dos animais examinados (18,5%) apresentou otite média supurativa. O diagnóstico da doença em animas afetados pela SRM sugere que o definhamento e/ou imunodepressão associadas com essa patologia possam estar relacionadas com a predisposição às otites bacterianas. A presença de A. pyogenes em 63,6% das lesões sugere a importância desse organismo na etiologia das otites associadas à SRM em suínos.

Figura 1: Abscesso no ouvido médio

Figura 2: Leitão com desvio da cabeça, sinal característico de otite

Agente isolado Freqüência
Arcanobacterium pyogenes 14 (63,64%)
Pasteurella multocida 9 (40,91%)
Streptococcus alfa-hemolítico 4 (18,18%)
Staphylococcus aureus 1 (4,55%)
Corynebacterium sp. 1 (4,55%)
Escherichia coli 1 (4,55%)
Referências
COWAN, S. T. Cowan & Steel´s Manual for the Identification of Medical Bacteria. 2nd edn. Cambridge: Cambridge University Press, 238 p., 1974.
DUFF, J. P.; SCOTT, M. K.; WILKES, B. H. Otitis in weaned pig: a new pathological role for Actinobacillus (Haemophilus) pleuropneumoniae. The Veterinary Record. v. 139, n., p. 561-563, 1996.
HIPOLITO, O.; LAMAS, J. M.; GODOY, A. M. Otite média dos suínos. Arquivos da Escola Superior de Veterinária de Minas Gerais. v. 11, p. 351-356, 1958.
SHIMADA, A.; ADACHI, T.; UMEMURA, T.; KOHNO, K.; SAKAGUCH, Y.; ITAKURA, C. A pathologic and bacteriologic study on otitis media in swine. Veterinary Pathology. v. 29, n. 4, p. 337-342, 1992.
TAYLOR, D. J. Miscellaneous bacterial infections. In: STRAW, B.E.; ALLAIRE, S.D.; MENGELING, W.L.; TAYLOR, D.J. Diseases of Swine, 8th Edn. Ames: Iowa State University Press, p. 613-642, 1999.
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