Clostridium difficile: um grande problema ainda pouco conhecido

Cristiane da Silva Duarte Furtado(foto), Felipe Leonardo Koller, William Asanome, David E. Barcellos.

UFRGS – FAVET - SETOR DE SUÍNOS, Av. Bento Gonçalves, 9090, CEP 91540-000, Porto Alegre – RS



Importância:

As doenças relacionadas com o Clostridium difficile são consideradas emergentes na suinocultura. Nos últimos anos, tem ocorrido um crescente aumento do diagnóstico laboratorial dessas enfermidades em países europeus e norte americanos. Segundo Songer et al. (2004), o bacilo pode ser responsável por até 30% das enterites neonatais e pela morte de até 10% dos leitões nas maternidades.

Definição e Etiologia:

O avanço tecnológico e científico ocorrido nas últimas décadas permitiu o desenvolvimento de vários antimicrobianos, inclusive os de amplo espectro, os quais são largamente utilizados na produção animal. O uso inadequado desses fármacos pode acarretar conseqüências negativas à saúde dos seres humanos e dos animais, devido à resistência desenvolvida pelos microorganismos e elevando a ocorrência de doenças relacionadas a agentes oportunistas.
O Clostridium difficile é um agente oportunista, anaeróbio obrigatório, Gram-positivo, formador de esporos e algumas cepas são produtoras de duas toxinas conhecidas como "A e B". A bactéria é comumente encontrada no solo, água e intestino dos seres humanos e dos animais. Geralmente os casos de infecção ocorrem durante ou após o tratamento de animais com antimicrobianos, devido a alterações da microbiota intestinal provocada pelos fármacos. Em condições normais, o C. difficile se mantém inócuo no intestino. No entanto, quando ocorrem determinadas alterações da microbiota anaeróbia entérica, bactérias resistentes a antimicrobianos podem se multiplicar, inibindo o crescimento das bactérias benéficas ao trato intestinal e favorecendo o crescimento de bactérias patogênicas, como o C. difficile. Essas podem produzir toxinas que, aliadas a outros fatores de virulência, são responsáveis pelo aparecimento dos sinais clínicos nos animais.

Patogenia:

Os fatores envolvidos no desencadeamento dos sinais clínicos ainda não estão totalmente elucidados. A literatura sugere que a virulência do agente pode estar associada às fimbrias, à cápsula e a enzimas degradantes. Existe a certeza de que a produção das toxinas A e B é um fator essencial para a manifestação dos sintomas (SONGER et al.,2000). As duas toxinas invadem as células entéricas, provocando uma alteração no citoesqueleto e no seu funcionamento, provocando uma inibição da síntese protéica, com conseqüente redução da multiplicação celular e descamação dos enterócitos. Essas lesões celulares causadas pelas toxinas ocorrem com maior intensidade no topo das vilosidades, causando uma lesão celular mais grave neste local. Entretanto, toda a mucosa entérica é envolvida por uma severa reação inflamatória, resultando em áreas de necrose ao longo do epitélio.

A toxina A, através de seus efeitos enterotóxicos, provoca efusão, aumento da permeabilidade intestinal e uma potente reação inflamatória aguda na mucosa, resultando em necrose tecidual, edema hemorrágico e ulceração do epitélio. Ademais, a toxina B tem efeito citotóxico cerca de mil vezes mais potente que a anterior e causa profundas alterações eletrofisiológicas e morfológicas na mucosa do cólon. Além dessas alterações, foi evidenciado que as duas toxinas são capazes de estimular a liberação de potentes mediadores inflamatórios, tais como leucotrienos e citocinas, os quais geram um influxo de granulócitos e macrófagos para o local da lesão, resultando num dano tecidual adicional.


Edema do mesocólon de leitão infectado com C.difficile

Sinais clínicos:

A infecção geralmente ocorre em leitões com idade variando entre três dias até dois meses. A sintomatologia se manifesta mais freqüentemente entre 1 e 7 dias de idade (SONGER, 2002). A apresentação dos sintomas pode ou não estar associada ao uso de antimicrobianos nas leitegadas afetadas. Leitões com alto nível de saúde e desenvolvimento exuberante podem se apresentar enfermos (Songer et al., 2000).

Dentre os principais sinais clínicos apresentados pelos animais lactantes podemos citar: dispnéia, distensão abdominal moderada, edema escrotal, depressão, inapetência, morte súbita e, ocasionalmente, enterite neonatal. A diarréia é autolimitante, amarelada e com consistência que varia de pastosa à aquosa. Leitões de 2 meses de idade podem apresentar retardo no crescimento, diarréia e enterocolite fibrino-necrótica. Contudo, segundo Yager (2002), apenas 41% dos animais positivos para a presença de toxinas apresentam diarréia, demonstrando que a sua ausência não exclui a ocorrência da infecção.

A presença de ascite e hidrotórax são achados comuns nos animais necropsiados, enquanto que no exame histopatológico as alterações mais freqüentes são: presença de precipitados de uratos nos rins, edema severo na submucosa e no mesocólon ascedente (Figura1), com exsudação multifocal de muco, fibrina e agregados de neutrófilos. No entanto, casos onde não há edema do mesocólon não devem ser considerados negativos para presença das toxinas (YAGER,2002). É comum a formação de uma camada diftérica sobre a mucosa do cólon, resultando em colite catarral, podendo chegar a purulenta. Porém, estudos demonstraram que 55% dos animais com diagnóstico confirmado para a presença das toxinas não apresentaram colite. Portanto, quando presente, a colite é um bom indicador da presença de toxinas, mas a sua ausência não descarta a possibilidade de infecção (YAGER,2002).

A prevalência desta enfermidade pode chegar a dois terços das leitegadas e até 100% dos leitões de uma mesma fêmea (SONGER, 2002). Na maioria dos surtos, a mortalidade se mantém baixa, em casos extremos podem atingir até 50% dos animais doentes (SONGER, 2004).

Diagnóstico:

Os sinais clínicos, acompanhados das lesões mais comuns, auxiliados pela cultura bacteriológica são bons indicativos da ocorrência da enfermidade relacionada ao C. difficile, pois tem sido achada correlação de 93,7% entre sinais, lesões e cultura bacteriológica (SONGER et al., 2000). No entanto, atualmente, a detecção da toxina por soroneutralização citotóxica (teste de ELISA) é considerada a técnica padrão para a confirmação laboratorial da infecção. Para o diagnóstico laboratorial podem ser utilizadas fezes ou apenas suabe retal dos animais suspeitos, pois segundo Yager (2002), há uma correlação de 95% entre o nível de toxinas presentes no cólon e no suabe retal.

Tratamento:

Devido à falta de algumas informações sobre a doença entérica causada pelo C. difficile em suínos, a prevenção e terapia aplicadas a essa espécie ainda são pouco conhecidas e divulgadas. Os experimentos atuais se baseiam em medidas tomadas para controlar infecções de outras espécies de animais domésticos. No entanto, alguns dos fármacos utilizados nelas não são liberados para o uso em animais de produção, dificultando o tratamento nos suínos. A bacitracina metileno disalicilato pode ser uma opção, pois este antimicrobiano é aprovado para uso na prevenção e tratamento de enterites causadas por C. difficile em suínos (SONGER et al., 2000). O protocolo publicado pelo autor recomenda que as fêmeas prenhes sejam tratadas com 250g por tonelada de ração durante 2 semanas pré-parto e durante a lactação recebendo a mesma concentração por 3 semanas após o parto. Em alguns surtos esse protocolo foi efetivo, porém em outros a resposta ao tratamento não foi satisfatória (SONGER et al., 2000). Outros estudos sugerem que a tetraciclina, tilosina e tiamulina têm o potencial de reduzir a eliminação do microorganismo pelas fêmeas e que a tilosina, a tiamilina e a eritromicina seriam potencialmente efetivas no tratamento de neonatos (YAGER, 2002).

Prevenção:

Atualmente, não existem métodos efetivos de prevenção da doença, pois comercialmente não há vacinas eficazes contra o agente. Alguns experimentos têm apresentado resultados promissores com o uso de imunização parenteral ou oral com cepas inativadas por formalina (bacterinas toxóides), sendo obtidas com seu uso altas concentrações de anticorpos neutralizantes e, conseqüentemente, proteção efetiva (SONGER et al., 2000). Estão sendo estudados, além disso, vacinas autógenas e anticorpos contra toxinas A e B.

A redução da carga microbiana nas instalações é outra forma de controle da infecção. A desinfecção adequada das baias é fundamental na redução da ocorrência de surtos. Contudo, a desinfecção deve ser feita de modo a remover mecanicamente os esporos do C. difficile, pois estes são altamente resistentes no meio ambiente e tolerantes à maioria dos desinfetantes. Sendo assim, o uso de água sob alta pressão é um método eficiente para reduzir significativamente a contaminação ambiental (YAGER, 2002).

Considerações finais:

Apesar do aumento dos casos de diarréia causados pelo C. difficile, sua relevância como agente causador de diarréia em leitões provavelmente ainda seja subestimada, pois existem poucos estudos sobre o agente. Para uma prevenção eficiente, tratamento efetivo e diagnóstico preciso, se faz necessário o um melhor conhecimento da infecção causada por essa bactéria.

Referências

PERFUMO, C. J. et al. Neonatal piglet mesocolon oedema and colitis. Pathology and etiology. In: INTERNATIONAL PIG VETERINARY SOCIETY, 17 , 2002, Ames. Proceedings. Ames: International Pig Veterinary Society, 2002, paper 467.
ROCHA, M. F. G.; SIDRIM, J. J. C.; LIMA, A. Â. M. O Clostridium difficile como agente indutor de diarréia inflamatória. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical Uberaba, v. 32, n. 1, Jan.-Feb. 1999 Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0037-86821999000100009&lng=en&nrm=iso&tlng=pt>. Acesso em: 26 jul. 2004.
SONGER, J. G.; JOST, B. H.; POST, K.W. Diagnosis of Clostridium difficile associated disease (CDAD) in neonatal swine. In: INTERNATIONAL PIG VETERINARY SOCIETY, 17 , 2002, Ames. Proceedings. Ames: International Pig Veterinary Society, 2002, paper 263.
SONGER, J. G. et al. Infection of neonatal swine with Clostridium difficile. Swine Health and Production, v. 8, n. 4, p. 185-189, jul-aug, 2000.
YAGER, M., Clostridial enteritis: diagnosis, significance, control. 33th Annual Meeting of the American Association of Swine Veterinarians, Proceedings, Iowa, p. 261, 2002.
Swine Diseases (Intestines) - Clostridial difficile. Iowa State University. Disponível em: <http://www.vetmed.iastate.edu/departments/vdpam/swine/diseases/intestines/clostridiadifficile/>. Acesso em: 23 jul. 2004.

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