Intervalo
Desmame-Estro e Subsequente Desempenho Reprodutivo em Suínos.
Evandro Poleze(foto), Mari Lourdes Bernardi,
Ivo Wentz e Fernando Pandolfo Bortolozzo.
UFRGS - Setor de Suínos, Av. Bento Gonçalves 9090, CEP 91540-000,
P. Alegre, RS.
O intervalo desmame-estro (IDE) corresponde ao período compreendido
entre o dia do desmame e a nova manifestação dos sinais
de estro. Esta fase faz parte do ciclo reprodutivo normal da porca e é
considerada como um dos principais componentes dos dias não-produtivos.
Aproximadamente uma semana após o desmame, espera-se que 80-85%
das primíparas e 90-95% das multíparas manifestem sinais
de estro, contanto que o período de lactação tenha
uma duração mínima de 14 dias. Entretanto, fatores
ambientais, genéticos, nutricionais e de manejo podem influenciar
o IDE (Dial et al., 1992).
Nos anos 80 o IDE era de 11,5 a 20,5 dias em fêmeas com períodos
de lactação de 5 semanas (Vesseur, 1997). Com a evolução
da suinocultura e a intensificação da produção,
este período foi reduzido para aproximadamente 5 a 7 dias (Koketsu
e Dial, 1997). Devido a esta evolução do processo, tem se
verificado que um número considerável de fêmeas passou
a manifestar estro com IDE de 0, 1 e 2 dias. Avaliando dados de uma granja,
Kummer et al. (2003) observaram que 7,2% dos animais, manifestaram estro
até 2 dias após o desmame. No entanto, tem-se verificado
que existe carência de informações sobre o desempenho
reprodutivo de fêmeas que apresentam IDE curtos (até 3 dias).
Ao longo dos anos tem sido sugerido que existem diferenças no desempenho
reprodutivo, principalmente taxa de parto e tamanho da leitegada, de acordo
com o IDE em que as fêmeas são inseminadas. Aparentemente,
as fêmeas com IDE entre 6 e 12 dias apresentam redução
na taxa de parição e tamanho da leitegada (Wilson e Dewey,
1993, Vesseur et al., 1994). Entretanto, fêmeas que manifestam estro
entre 0 e 2 dias, dificilmente, são avaliadas individualmente.
Na maioria dos estudos as fêmeas são agrupadas com aquelas
com IDE de até 3 dias e avaliadas conjuntamente.
Wilson e Dewey (1993) observaram redução da eficiência
reprodutiva de fêmeas inseminadas com IDE de 7-10 dias. O número
de leitões nascidos vivos e a taxa de parto das fêmeas dessa
categoria de IDE foi menor (P<0,0001) do que nas categorias de 36 dias
e 11-14 dias. Pela observação dos autores, o tamanho da
leitegada reduz nas fêmeas com IDE de 3 aos 10 dias, aumentando
gradativamente a partir das coberturas realizadas na categoria de IDE
>12 dias. Vesseur et al. (1994) também observaram resultados
semelhantes, havendo redução gradativa no tamanho da leitegada,
leitões nascidos vivos e taxa de parto entre as categorias de IDE
até 12 dias. O tamanho da leitegada subseqüente (TLS) de fêmeas
com IDE de 19 ou mais dias foi superior a todos os outros intervalos.
Os dados utilizados no presente estudo foram obtidos de “Backups”
do programa de gerenciamento de granjas PigCHAMP?, oriundos de duas unidades
comerciais produtoras de suínos. O objetivo deste estudo foi caracterizar
a freqüência de distribuição do intervalo desmame-estro
e quantificar as conseqüências da variação deste
intervalo sobre o desempenho reprodutivo, avaliado pelas taxas de retorno
ao estro (RE), parto ajustada (TPA), e tamanho da leitegada subseqüente
(TCS).
Estudo
Na granja A, 3,4%, 0,6% e 1% e na granja B, 1,9%, 1,6% e 2,8% das fêmeas
manifestaram estro com intervalo de 0, 1 e 2 dias pós-desmame,
respectivamente. Das fêmeas avaliadas, 81,2% e 77,3% apresentaram
estro entre 3 e 5 dias após o desmame, nas granjas A e B, respectivamente
(Figura 1).
Em algumas granjas, o baixo percentual de fêmeas manifestando estro
neste período pós-desmame poderia ser devido às granjas
simplesmente não detectarem estros nos dias 0, 1 e 2 ou não
realizarem o manejo de detecção de estro antes de 3 dias
pós-desmame. Nas granjas A e B, respectivamente, 5,0 e 6,3% das
fêmeas manifestaram estro entre os dias 0 e 2, acima dos 0,44% observado
por Vesseur (1997) para fêmeas com IDE entre 0 e 3 dias.
Provavelmente, algumas fêmeas possam ter sofrido um maior desgaste
na maternidade devido ao catabolismo lactacional mais acentuado ou por
terem apresentado estro durante a lactação, estro curto
e/ou silencioso logo após o desmame sem ter sido detectado, embora,
somente 7,1% das fêmeas amamentaram por um período de 23-26
dias.
A baixa estimulação na mamada também ocorre quando
houver poucos leitões ou leitões pequenos mamando na fêmea,
fatores observados principalmente pelo excesso de transferências
cruzadas ao longo de todo o período lactacional e trocas de leitões
para padronizações das leitegadas. Há algumas práticas
de manejo, como a realização de desmame parcial e do manejo
com amas de leite que, se realizadas de forma incorreta, podem colaborar
para a entrada precoce em estro após o desmame ou mesmo fazer com
que as fêmeas manifestem estro na maternidade, principalmente quando
recebem leitões pequenos ou refugos (Paterson e Pearce, 1994; Tsuma
et al., 1995; Kummer et al., 2003). Outra característica que poderia
ser um possível causador de IDE menores que 3 dias, são
aquelas fêmeas desmamadas com bom escore corporal.
Embora seja esperado que fêmeas com lactação mais
longa, pelo fato de já terem entrado na fase de normalização
da liberação de gonadotrofinas, manifestem estro rapidamente
após o desmame (Britt, 1996), as fêmeas amas-de-leite poderiam
ser separadas de suas leitegadas originais e acabariam recebendo os leitões
enxertados em períodos >6 horas. De acordo com Stevenson and
Davis (1984), estas fêmeas permanecem um determinado período
sem a estimulação das mamadas e acabam recebendo um número
menor de leitões, ações que poderiam predispor ao
estro lactacional ou no dia do desmame. Para aquelas fêmeas desmamadas
após duas semanas de lactação, o IDE pode ser afetado
pela intensidade da mamada e idade dos leitões. No presente estudo,
é possível que as fêmeas amas-de-leite que receberam
leitões no dia do desmame da leitegada original, tenham tido alteração
no perfil hormonal pela mudança na intensidade de sucção,
visto que costumam receber leitões menores e, com freqüência,
em menor número. Essas fêmeas, caso tenham demorado em receber
a nova leitegada, poderiam ter manifestado estro lactacional ou, então,
por não ter tido uma supressão intensa da liberação
de gonadotrofinas, manifestariam estro no dia do desmame definitivo, podendo
o mesmo não ter sido detectado.
Cabe ressaltar que, nas fêmeas detectadas em estro nos dias 0 e
1 após o desmame, a identificação do início
do estro pode ter sido imprecisa. Com isso, algumas dessas fêmeas
poderiam ter sido inseminadas em intervalo inseminação-ovulação
inadequado, o que poderia explicar os baixos percentuais das taxas de
parto observados nas granjas A e B, dentre as fêmeas que compunham
essas categorias de IDE.
A taxa média de RE foi 7,7% e 8,4% nas granjas A e B, respectivamente.
Fêmeas com IDE de 0 e 1 dia na granja A e de 0 a 2 dias na granja
B, apresentaram elevadas taxas de RE em comparação com os
outros intervalos. As fêmeas que apresentaram estro no dia do desmame
(IDE 0) tiveram as taxas mais elevadas de RE, as quais foram diferentes
(P<0,05) das observadas nas outras classes de IDE ou semelhantes apenas
às das fêmeas com IDE 1. Fêmeas com IDE 3-5 dias apresentaram
as menores taxas de RE (P<0,05), as quais foram semelhantes somente
às das fêmeas com IDE 2 (granja A) ou IDE 19-21 dias (granja
B).
As TPA apresentadas por fêmeas com IDE 0 e 1 foram menores (P<0,05)
que as das fêmeas com IDE 3-5 dias, nas duas granjas (Figuras 2
e 3).
Na granja A, fêmeas inseminadas com IDE 0 apresentaram TPA inferiores
a todos os IDE, entre 2 e 21 dias (P<0,05), enquanto que na granja
B as fêmeas inseminadas nos dias 0 e 1 pós-desmame apresentaram
TPA inferiores a todos os outros intervalos. Vesseur (1997) relatou taxa
de parto inferior para fêmeas primíparas com IDE de 0 a 3
dias em comparação àquelas com IDE 5. Nas duas granjas,
as fêmeas que foram inseminadas 6 e 8 dias pós-desmame apresentaram
TPA e RE diferentes do intervalo considerado como ideal (IDE de 3-5 dias),
concordando com as observações de Wilson e Dewey (1993)
e Tantasuparuk et al. (2000). As fêmeas que foram inseminadas entre
os dias 9 e 12 pós-desmame também tiveram seu desempenho
reprodutivo (RE, TPA e TL) comprometido, confirmando observações
anteriores (Vesseur, 1997; Tantasuparuk et al, 2000), de que estes animais
teriam maior risco para TP e TL reduzidas. A razão pela qual estas
fêmeas apresentam desempenho reprodutivo comprometido não
está completamente esclarecida. Suspeita-se que seja devido ao
catabolismo lactacional mais acentuado ou estratégia de inseminação
em relação ao intervalo entre início do estro e ovulação
(Soede et al., 2001).
O tamanho de leitegada subseqüente para as granjas A e B foi de 12
2,8 e 11,6 3,1 leitões, respectivamente. As leitegadas subseqüentes,
de acordo com o IDE, nas granjas A e B, são mostradas respectivamente
nas figuras 4 e 5.
Fêmeas de IDE curto (0-2 dias) apresentaram TLS semelhante à
das fêmeas das demais classes de IDE (granja A) ou inferior somente
ao das fêmeas com IDE 13-18 e 19-21 dias (granja B). O TLS foi influenciado
pelo IDE, o que corrobora com trabalhos publicados anteriormente (Wilson
e Dewey, 1993; Vesseur, 1997; Tantasuparuk et al., 2000). Embora a taxa
de parto tenha sido reduzida nas fêmeas de IDE curto (0-2 dias),
o tamanho da leitegada não foi afetado, em comparação
com aquele das fêmeas de IDE 3 a 5 dias, semelhante ao observado
por Vesseur (1997). Fêmeas com IDE 6 a 8 tiveram leitegadas menores
que aquelas com IDE 3 a 5, em ambas as granjas. Para Soede e Kemp (1997),
um aumento entre 3 e 8 dias no IDE estaria associado com a diminuição
do intervalo início do estro ovulação, ou seja, as
fêmeas com IDE maior, teriam um menor intervalo entre o início
do estro e a ovulação. Com isso, aumentariam as chances
de que a primeira IA seja pós-ovulatória nessa categoria.
Na granja B o maior TLS foi verificado em fêmeas inseminadas 19-21
dias pós-desmame. Vesseur (1997) também observou maior TLS
para fêmeas com IDE >18 dias em comparação ao das
fêmeas com IDE mais curto. A razão para este aumento poderia
estar relacionada, principalmente, ao período extra que estas fêmeas
tiveram para se recuperar do estado catabólico sofrido durante
a lactação, além de um período maior para
involução uterina (Soede et al., 2001). Os mesmos autores
também comentam que fêmeas que apresentam IDE mais longos
podem ter apresentando melhor desempenho reprodutivo, por terem sido inseminadas
em um possível segundo estro pós-parto.
De maneira geral, o desempenho reprodutivo (RE, TP e TLS) nos IDE 0, 1,
6-12 e 19-21 dias, na granja A, e nos IDE 0, 1 e 9-12 dias na granja B,
esteve abaixo do comumente observado em outras granjas suínas.
Em ambas as granjas, as taxas de parto ajustadas tenderam a diminuir entre
os IDE 0 e 1, aumentaram com IDE 3-5, reduziram nos intervalos de 6-12
dias e aumentaram novamente após os 13 dias.
Conclusão
O intervalo desmame-estro pode variar entre granjas e dentro da mesma
granja, sendo um problema para o manejo das matrizes e para o estabelecimento
de programas reprodutivos. A variabilidade observada principalmente na
manifestação do estro pós-desmame pode influenciar
na formação dos grupos de cobertura, alterar o manejo subseqüente
do rebanho nas diferentes fases e dificultar o cumprimento das metas de
produção. Dentre as várias categorias de fêmeas
presentes em uma granja, as primíparas apresentaram, freqüentemente,
IDE mais prolongado, demonstrando que os efeitos do catabolismo lactacional
são mais pronunciados nessa categoria de fêmeas, provavelmente,
por ainda estarem em crescimento.
Neste contexto, o manejo dispensado ao intervalo desmame-estro deveria
respeitar as necessidades fisiológicas das matrizes quanto ao ambiente,
nutrição e manejo em geral. A detecção do
primeiro estro após o desmame deve ser precisa, para que as fêmeas
sejam inseminadas em intervalo inseminação-ovulação
ideal e não tenham seu desempenho reprodutivo comprometido.
Quando todas as ações que envolvem este intervalo são
realizadas com empenho e atenção, os descartes por anestro
ou por baixa produtividade (número de leitões produzidos
por fêmea por ano) poderão ser reduzidos e o percentual de
fêmeas em estro em até 7 dias pós-desmame será
maior. Por conseguinte, ocorrerá redução dos dias
não-produtivos, aumento na produtividade e redução
dos custos de produção.
Mesmo com taxas de parto reduzidas, as fêmeas que manifestam estro
entre 0 e 2 dias pós-desmame deveriam ser inseminadas, pois as
que ficaram prenhes apresentaram tamanho de leitegada semelhante àquelas
com intervalo considerado normal.


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