Utilização de gonadotrofinas para indução do estro em fêmeas suínas

Rafael Kummer, Wald'ma Sobrinho Amaral Filha,

Paulo Eduardo Bennemann, Ivo Wentz, Fernando P. Bortolozzo
UFRGS – FAVET - SETOR DE SUÍNOS, Av. Bento Gonçalves, 9090, CEP 91540-000, Porto Alegre – RS.



A suinocultura atual, cada vez mais competitiva e tecnificada, obrigou produtores e profissionais a trabalharem de forma mais precisa na detecção e controle de fatores prejudiciais à produtividade do plantel. Uma ferramenta que pode ser utilizada, em situações específicas e/ou emergenciais, é a hormonioterapia que, basicamente, age iniciando ou reativando a atividade cíclica de fêmeas em anestro, evitando, dessa forma, o aumento dos dias não produtivos de um plantel.

O estro e a ovulação são decorrentes de um fenômeno que envolve o eixo hipotálamo-hipófise-ovário. O hormônio liberador das gonadotrofinas (GnRH), secretado pelo hipotálamo, age na hipófise levando a liberação dos hormônios folículo-estimulante (FSH) e luteinizante (LH), ambos com ação no ovário. O FSH é responsável pelo desenvolvimento dos folículos ovarianos, os quais são responsáveis pela síntese de estrógenos. Os estrógenos, especificamente o hormônio 17 estradiol, é responsável pelos sintomas de estro e também pelo pico de LH, que desencadeará a ovulação.

O anestro significa inatividade sexual, sendo considerado fisiológico anteriormente à puberdade, durante a gestação e lactação. Normalmente espera-se que 90 a 95% das pluríparas apresentem estro e sejam cobertas até 10 dias após o desmame e que 85 a 90% das leitoas manifestem o primeiro estro até 190 dias de idade. Para as leitoas que não apresentam estro até 190 dias e para as porcas em anestro até 10 dias após o desmame recomenda-se a utilização da hormonioterapia. Os hormônios mais utilizados na suinocultura são os mimetizadores do FSH e do LH sendo, principalmente, a gonadotrofina coriônica eqüina (eCG) em associação com a gonadotrofina coriônica humana (hCG).

Gonadotrofina Coriônica Eqüina

O eCG, também chamado PMSG (gonadotrofina sérica da égua prenhe), é uma glicoproteína que pode ser detectada no sangue de éguas entre o 50º e o 100º dias de gestação (Papkoff, 1981), que na égua tem por função desenvolver folículos ovarianos e, como conseqüência, a formação de corpos lúteos acessórios. A estrutura molecular do eCG é constituída de duas subunidades ( ), possuindo 72,8% de atividade FSH e 27,2% de atividade LH, sendo o único hormônio glicoprotéico que contém atividade de FSH e LH na mesma molécula. A alta quantidade de ácido siálico contribuí para uma longa meia-vida de vários dias do eCG. Nos suínos, o eCG é usado com função de hormônio folículo estimulante (FSH) e hormônio luteinizante (LH), via ação direta no ovário, estimulando o crescimento folicular, ovulação e estro em leitoas e provocando o reinício da atividade ovariana após o desmame, com conseqüente redução no intervalo desmame estro (IDE). Existe uma teoria que o eCG possa atuar diretamente na hipófise, levando a liberação de gonadotrofinas e promovendo o crescimento folicular.

Gonadotrofina Coriônica Humana

O hCG é uma glicoproteína sintetizada pelas células sinciciotrofoblásticas da placenta de primatas, encontradas no sangue e na urina, sendo detectada a partir do 8º dia após a concepção. A ação do hCG é semelhante ao LH e devido a isso foi o primeiro hormônio disponível para o tratamento de ovários císticos em bovinos. O hCG pode estimular as células intersticiais do ovário causando ovulação, atuar luteinizando as células da granulosa, manter a vida funcional do corpo lúteo e aumentar a secreção de progestágenos das células luteinizadas (Hafez, 1995). Assim como o LH, o hCG potencializa a ação do FSH no crescimento ovariano, podendo causar crescimento de folículos ovarianos quando utilizado em altas doses.

Utilização em leitoas

Estudos têm demonstrado que o sistema hipotálamo-hipófise-ovário está funcional a partir do 70° dia de idade da leitoa e é capaz de responder a aplicação de hormônios exógenos (Pressing, 1992). O eCG associado ao hCG tem seu uso indicado para a indução da puberdade em leitoas, sendo que no trabalho de Wentz et al (1992) 92,2% apresentaram estro. Deve-se saber, porém, que o uso dessa associação só levará a ciclicidade leitoas que realmente nunca ciclaram (figura 1), pois se for utilizado em animais que estão em atividade folicular (figura 2) a hormonioterapia não terá efeito, podendo em algumas leitoas induzir a formação de cistos ovarianos e infertilidade.

Estudos relatam a imprevisibilidade da ciclicidade após a aplicação hormonal e outros ainda revelam uma ausência do comportamento estral, mesmo com a ocorrência de ovulação após a aplicação. Isso, segundo Foxcroft (2002) pode estar relacionado com a ovulação imediata dos folículos ovarianos mais maduros no momento do tratamento, presumivelmente em resposta do tratamento com hCG. O aumento resultante da progesterona plasmática bloqueia a expressão do comportamento estral, até mesmo na presença de níveis elevados de estrógenos em resposta ao desenvolvimento de uma segunda onda de folículos ovulatórios em resposta ao componente eCG do produto aplicado.
Em estudo realizado Diehl (2003) comparou a entrada em estro de 154 leitoas com idade maior que 190 dias que estavam em anestro, sendo que em um grupo foi utilizado 400 UI de eCG + 200 UI de hCG e em outro grupo foi utilizado solução salina e o grupo induzido hormonalmente apresentou uma ciclicidade superior a 95% (tabela 2).

Utilização em porcas

Na fêmea suína, durante o aleitamento, o estímulo da mamada promove a liberação dos peptídeos opióides endógenos que agem bloqueando a liberação do GnRH pelo hipotálamo, e conseqüentemente, a liberação do FSH e do LH pela adenohipófise. A deficiência na concentração de gonadotrofinas plasmática impede o desenvolvimento folicular e, conseqüentemente, a produção do hormônio 17 estradiol, responsável pela sintomatologia estral.

Após o desmame, há um aumento imediato na liberação de gonadotrofinas pelo sistema hipotalâmico hipofisário, onde a produção de LH passa de baixa freqüência e alta amplitude para um padrão de alta freqüência e baixa amplitude de pulsos, e espera-se que 95% das fêmeas retomem a ciclicidade e apresente estro dentro de 10 dias. Entretanto, existe uma porcentagem de fêmeas que não respondem ao desmame com essa troca de padrão de LH, devido a uma falha na sua secreção fazendo com que ocorra um aumento no IDE. No entanto, é extremamente difícil distinguir quando um IDE prolongado é conseqüência de uma disfunção hipotalâmica, de um problema nos ovários ou se ambos estão envolvidos. A utilização da hormonioterapia é uma alternativa recomendada para essas fêmeas, que após a aplicação deverão apresentar estro em até 7 dias.

Contudo, algumas fêmeas podem apresentar IDE prolongado pelo fato de que as mesmas ciclaram logo após o desmame ou até mesmo na maternidade, mas não foram identificadas, então neste caso a hormonioterapia não é eficaz.

Utilização em primíparas

Outra utilização hormonal das gonadotrofinas pode ser em primíparas após o desmame, sendo realizada a fim de compensar um desempenho inadequado, caracterizado por um prolongamento do IDE e redução no tamanho da leitegada subseqüente. Em trabalho realizado visando avaliar o desempenho de primíparas submetidas ao tratamento hormonal, Vargas (2002) comparou o desempenho de 427 primíparas que foram submetidas a aplicação de 400 UI de eCG associada com 200 UI de hCG no dia do desmame com o desempenho de 422 porcas que sofreram a administração de solução salina e observou um aumento no percentual de fêmeas em estro até 10 dias, redução no intervalo desmame-estro e aumento no número de leitões nascidos totais e nascidos vivos (tabela 2).

Atualmente na suinocultura, é indispensável que o plantel alcance alto desempenho reprodutivo. Falhas na manifestação do estro proporcionam um aumento dos dias não-produtivos além de uma quebra no fluxo de produção da granja. Deve-se estar disposto a adoção de tecnologias e estratégias de manejo que reduzam os dias não-produtivos e a hormonioterapia é uma ferramenta há muito tempo estudada e utilizada na suinocultura, visando, principalmente, otimizar o desempenho reprodutivo de fêmeas que apresentam puberdade atrasada, fêmeas em anestro pós-desmame e em primíparas após o desmame em momentos críticos. Contudo, sua utilização não é a solução de todos os problemas, nem tampouco deve ser utilizada visando cobrir falhas de manejo, porém quando utilizada corretamente, a hormonioterapia tende a apresentar resultados satisfatórios (Coffey, 1997).

Referências
COFFEY, R.D. Manipulation of the estrous cycle in swine. Journal Animal Science [periodico on line] 1997. Disponível em URL: www.uky.edu/Agriculture/AnimalSciences/ extension/pubpdfs/asc152.pdf [1997].
DIEHL, G.N.; VARGAS, A.J.; COSTI, G.; BERNARDI, M.L.; WENTZ I.; BORTOLOZZO, F.P. Terapia com gonadotrofina coriônica eqüina associada a gonadotrofina coriônica humana em leitoas com falhas na manifestação de estro. In: XI CONGRESSO BRASILEIRO DE VETERINÁRIOS ESPECIALISTAS EM SUÍNOS. v. 2, 2003, Goiânia. Anais... Goiânia,GO, 2003. p. 171-172.
FOXCROFT, G.R. Técnicas de indução da puberdade e sincronização para atingir as metas de cobrição do lote de leitoas de reposição. In: CONGRESSO LATINO AMERICANO DE SUINOCULTURA. 2002, Foz do Iguaçu. Minicursos sobre reprodução... Foz do Iguaçu, PR, 2002. p. 3-37.
PAPKOLFF, H. Variations in the properties of equine chorionic gonadotropin. Theriogenoligy, v. 15(1), p.1-11, 1981.
PRESSING, A.; DIAL, G. D.; ESBENGHADE, S. L.; STROUD, C. M. Hourly administration of GnRH to prepuberal gilts: endocrine and ovulatory responses from 70 to 150 day of age. Journal Animal Science, v. 70, p. 232-242, 1992.
VARGAS, A.J. Comportamento estral e desempenho reprodutivo de primíparas suínas submetidas à terapia com gonadotrofina coriônica eqüina associada a gonadotrofina coriônica humana. Porto Alegre, RS: UFRGS, Impr. Univ., 2002. 55 f. Dissertação (Mestrado em Medicina Veterinária) Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Rio Grande do Sul.
WENTZ, Ivo, SCHEID, I. R., FIALHO, F.B.; THEISEN, F.A. Ciclicity and ovulation rate at third oestrus in gilts induced to puberty with gonadotrophins. In 12o IPVS Congress. Proceedings, 1992. p. 458.

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